quarta-feira, 25 de agosto de 2010
SER PROFESSOR, VALE A PENA?
SER PROFESSOR, VALE A PENA?
Ás vezes, quando me levanto cedo para dar aulas, bate-me um desânimo, fico pensando que irei falar, falar e, dos mais de quarenta alunos da sala, apenas uns seis ou sete irão ouvir-me de verdade. Muitos ficam com os olhos quase se fechando, talvez porque a internet tenha-lhes roubado o sono; outros, presos ao seu próprio mundo, ficam rabiscando desenhos, escrevendo bilhetes, fazendo desenhos da gente, pobres professores que ainda sonham...
Às vezes, sinto uma vontade imensa de mudar de profissão, de buscar uma maior valorização financeira e pessoal, talvez cantar na noite – algo de que sempre gostei- mas, aí, lembro que não sei interpretar pagode, nem pop, nem sertaneja, nem nada de que as pessoas gostam, lembro-me de que sou esquisita para esse tempo, de que gosto de bossa nova, de MPB que me acode os olhos e os ouvidos e aí...morreria de fome se vivesse de música.
Às vezes, vejo-me uma mulher vendendo algo colorido para deixar as outras mulheres mais felizes e penso que não teria capacidade de acumular lucros aproveitando-me de amigos ou até mesmo de desconhecidos.
Então, vou à escola e tento pensar que, neste dia, algo de melhor irá acontecer, que os alunos estarão atentos, com sede de saber, com desejo de conhecimento. Que, como num passe de mágicas, eles descobrissem que saber sobre Fernando Pessoa é mais prazeroso que beijar um monte de meninas na hora do intervalo, ou que aprender a ler uma imagem desperta-lhes ainda mais a sensibilidade. E, de repente, um aluno e uma aluna muito especiais apresentam-me um trabalho sobre Vidas Secas. Um trabalho que denotou pesquisa, vontade, empenho e sensibilidade, um trabalho que “acordou” não só a sala desses alunos, mas a sala vizinha também, que entusiasmou, emocionou e fez-me ver como é bom ser o que sou, como é bom levantar-me cedo e poder ver que, com um simples gesto de pedir para ler um livro e realizar um trabalho de apresentação oral, levei a alguém a possibilidade de que exercitasse o seu poder de sedução pela sabedoria, pela simpatia e, principalmente, que mostrasse a todos o seu desejo de aprender e de conhecer o mundo. Alunos que fizeram das secas vidas retratadas por Graciliano momentos de compreensão e de poesia. Obrigada Objámerson, obrigada Vanessa! Vocês me deram a certeza de que, apesar de quase estar aposentando-me da escola pública, tudo, absolutamente tudo valeu a pena!
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
PÉ QUEBRADO
Pé quebrado
Quando se é inquieto
E não se consegue fazer parar,
A vida dá um jeito,
Faz o pé quebrar.
Aí, a cabeça,
Que estava tão cheia de afazeres,
Relaxa, sente,
Acalma, se aquieta
E o movimento inquietante
que os pés seguiam
passa a ser pensamentos,
lembranças
e planos
para essa minha vida
em que tudo
acontece de repente.
13/08/2010
Quando se é inquieto
E não se consegue fazer parar,
A vida dá um jeito,
Faz o pé quebrar.
Aí, a cabeça,
Que estava tão cheia de afazeres,
Relaxa, sente,
Acalma, se aquieta
E o movimento inquietante
que os pés seguiam
passa a ser pensamentos,
lembranças
e planos
para essa minha vida
em que tudo
acontece de repente.
13/08/2010
domingo, 8 de agosto de 2010
80 anos do velho Jorge
Há um ano...
Pai,
Hoje de manhã fiquei pensando em muitas coisas...e lembrei-me de uma cadeirinha de balanço que o senhor me trouxe de viagem quando eu fiz 4 anos; lembrei-me de quando tive nefrite e que o senhor me trouxe uma cesta cheinha de doces quando sarei e finalmente podia comer alguma coisa gostosa; lembrei-me do meu primeiro banho de rio, no Rio Pardo e o senhor estava lá comigo...
Lembrei-me do senhor, sentado no chão, diante da mesinha da sala, na casa na Anita Garibaldi, ensinando-me a jogar buraco...lembrei-me do senhor ajudando-me a subir na Caloi 10 do Lélio que eu pegava escondida, e o senhor me ajudando a me equilibrar e a andar na bicicleta...lembrei-me do senhor me ensinando a acelerar a primeira moto que eu comprei e eu nem sabia andar; do senhor me explicando para sentar bem na frente do banco, um dia, em que o pneu traseiro da moto furou e eu o levei para consertar...lembrei-me do senhor, dirigindo seu velho carro, sempre com algo quebrado e me mostrando como mudava a marcha e pisava a embreagem.
Depois, lembrei-me do senhor no altar, no dia do meu casamento, o senhor estava tão emocionado que tive medo do seu coração novamente falhar...lembrei-me do senhor indo à minha casa, montar meu guarda-roupas...até de uma surra que o senhor me deu eu me lembrei, mas sem mágoas...era a linguagem que conhecia.
Lembrei que o senhor chamava a Mayra de “fuça-fuça” quando ela era pequenininha e de que o senhor sempre se emociona com música e pequenas coisas e lembranças....
Eu te amo, pai, muito, porque tudo o que o senhor me ensinou era para que eu fosse feliz, para eu me aventurar. O senhor me ensinou a me divertir, a rir, a ser feliz e...sabe por quê? Porque hoje, apesar de o senhor estar completando 80 anos, nunca deixou que se apagasse dentro de si o menino que sempre existiu e que - apesar do trabalho desde pequeno, apesar de andar quilômetros descalço para ir à escola - brincava, divertia-se e aprendia na fazenda Invernada.
É esse menino sempre vivo que deixa a gente tão feliz.
Um beijo da sua filha
Cláudia
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