segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O AMOR NOS TEMPOS DO ALZHEIMER

 
 



 

Ela chegou como uma criança, carregando o andador, reaprendendo velhos passos. Ele saiu de dentro ao seu encontro e os olhos marejaram. Águas milenares.


Minha mãe teve de permanecer em minha casa por alguns dias, Alzheimer e Fêmur quebrado eram algozes demais para mantê-la em sua casa. Meu pai ficou só, na casa vazia, olhando paredes e quadros coloridos cujas mãos plásticas ele bem conhece. 20 dias.

Depois das águas, diálogos antigos, promessas revividas, adolescência tardia. Ela não lembrava o nome dele, mas o que ela lhe disse a vida toda, saía de sua boca, de seus olhos, dos poros e das mãos trêmulas segurando o andador que quase foi ao chão por causa do olhar que ela não conseguia desviar. Foi impossível não lembrar Garcia Marques nas rugas e maduras peles encontrando-se na flacidez do tempo.

O amor não tem nenhum sentido... e eu fiquei pensando na força que esses velhos têm em minha vida e fiquei com tanto medo de perdê-los, ainda que eles não tenham sido tão presentes...o magnetismo do que viveram e vivem me arrasta.

Sei que não os terei por muito tempo, eu sei, só espero que, ainda que eu adoeça e minha memória se perca como a de minha mãe, que eu possa me lembrar do olhar que trocaram hoje à tarde e que eu ainda possa olhar para alguém também com a mesma magia ali transcendida.




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