sábado, 8 de outubro de 2011

DILÚVIO

O meu amor
escorre,
transborda,
invade terras
e valas
...
...
...
E eu não morro afogada.



quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Vendaval

Vento tempo,
Vendaval,
arrastou meu chão,
Roubou meu sal,
me deixou nua
na gélida lua
me levou você
Por quê?
E eu nem sei mais quem sou....

sábado, 17 de setembro de 2011

Sada

Uma das lembranças mais saborosas da minha infância era a casa de minha avó. Uma casa bem simples, mas arejada e que tinha um pé de figo contornado por uma pequena base onde eu me sentava à sombra para brincar com as formigas.
Minha avó mal falava o português, mas nossa comunicação era intensa. Lembro-me dos olhos dela, sempre tão úmidos e doces, do seu nariz, dos cabelos brancos e longos, seguros por uma grande presilha por detrás da cabeça. Lembro-me da expressão longínqua de seu sorriso, de quem estava sempre olhando para uma Síria guardada nos quibes aromáticos e saborosos que ela escondia para os netos num caldeirãozinho coberto com um pano de prato, bem acima do fogão a lenha, no canto daquela cozinha atrás de cuja porta eu tanto me escondia para brincar. Eu chegava e vóóóóóó... abraçava seus quadris, bem à altura dos meus braços. “Ayuni”, ela me dizia, e me beijava a cabeça, o rosto e segurava minhas mãos, na época tão pequenas e que ora serviam de caminhos de passeio para as formigas, ora as torturavam- pobres formigas. Minha mãe me deixava lá algumas manhãs e minha avó escolhia arroz numa baciazinha de alumínio meio amassada nos cantos e eu era a própria casquinha do arroz despejando perguntas: de onde ela havia vindo, por que falava tão diferente e ela respondia algo que eu não entendia e me olhava com tanto carinho que me atravessava e eu sentia aquele cheiro tão dela, aquele cheiro que muitas vezes hoje me vejo procurando em minha mãe, em minha tia...Eu a via tão grande, tão quente...ela deixava que eu mexesse em seus cabelos e, um dia, eu os pedi para ela e ela me disse que, quando se fosse desse mundo, eu poderia guardá-los.
Minha avó se foi, não me deixaram vê-la, eu era pequena... fiquei com esse vazio. Recordo-me quando o Guidinho, nosso vizinho, conversava com minha irmã e dizia que havia vindo do hospital e ela estava mesmo muito mal. Eu estava no colo de minha irmã, descalça, como sempre eu brincava e meus chinelos estavam virados e eu corri para tentar desvirá-los, minha irmã me segurou...eu expliquei o que pretendia e ela se adiantou "não adianta mais, Cláudia” e eu chorava e chorava,  pensando que se eu desvirasse os chinelos, minha avó viveria para sempre, e viria, como toda noite ela fazia, ver televisão na minha casa e eu poderia, como toda vez eu fazia,  deitar minha cabeça em seu colo cheiroso de tempero de esfirra, de quibe, de acelga, de farinha, um colo com o aroma de uma mistura de coisas que me transportavam para um lugar de descanso e de ternura, tão milenar e tão presente. Minha avó morreu em frente a minha casa quando atravessava a rua. Ela me beijou e foi embora e eu só ouvi um barulho e nunca mais a vi. Ninguém sabe, nem eu sei como consegui ou de quem os peguei, mas os chinelos que ela usava naquele dia estão guardados aqui comigo, descansando numa caixa, virados para cima.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Eita, porra!

Eita, porra!


Era o grito de guerra em Salvador. A expressão vale para situação positivas e negativas; por exemplo, no campo de futebol, se o jogador erra um passe: Eita, porra!, se acerta: Eita, porra!, se faz gol: Eita, porra, que gollllllllllllllllllllllllll!!!!!

Na rua, se algum carro cruza sua frente: Eita, porra; se por acaso você quer atravessar a rua e não há como por causa do intenso tráfego: Eita, porra! Se você vai a um restaurante e está caro: Eita, porra; se está barato: eita, porra!

O baiano não tira eita porra da boca, ela está na ponta da língua e no céu da boca e eu só posso dizer que, apesar de todo cheiro de urina pelos cantos, apesar dos monumentos históricos não estarem conservados como deveriam: eita, porra...

que cidade mais linda e sedutora!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Formadura


Está pronto o cerimonial
E algozes fingem dádivas

Celebrando aos réus

Suas oferendas lilases.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Gauche

Quando eu nasci
Um anjo espertinho,

Desses que vivem
Camuflando fumaças nas nuvens, disse:

“Vai, Cláudia, trabalhar muito na vida!
Estudar, casar preocupações...
Vá dar aula no ensino público estadual”.



Que anjo mais fdp.

sábado, 30 de abril de 2011

BLIMUNDA

"Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas, porque vês às escuras" (Saramago, Memorial do Convento)



Para  Mayra, pela inesquecível leitura...


Toda mulher gostaria de ser Blimunda, acordar e não poder olhar para o homem que ama porque se não lhe teria a alma na primeira fresta, guardaria com ela todas as vontades, as arestas;

Toda mulher gostaria de ter um amor como o de Baltasar Sete-Sóis só para fazê-la brilhar, ainda que maltrapilha, repleta de pelos e poucos dentes na boca; sem desejo de sorte ou medo de azar.

Toda mulher gostaria de ser Blimunda para poder amar em sete sóis e sete luas que seriam sete séculos e lhe dariam sete vidas, ainda que ela não cresse que o mundo fosse feito em sete dias...

E poder voar em passarolas gigantescas e inimagináveis...chegar perto do céu das viagens diante de todas as vontades dos homens guardadas.

Toda mulher gostaria de ser Blimunda para buscar Baltasar por longos nove anos se preciso fosse

E caminhar descalça e rota e viva e morta, não saber o que são calos e o que são pés e matar um frade por dia se isso pudesse trazer seu Baltasar para perto e pudesse guardar a sete chaves o gosto e o odor de suas entranhas que só este conhece, só Baltasar... que lhe dera os sete sóis para as suas sete luas...

Toda mulher gostaria de ser Blimunda porque, ainda que visse seu Baltasar queimar no fogo das injustas causas político-religiosas-socias, criadas pelos homens com peculiar sadismo e frenesi, olhá-lo-ia com o amor que transborda e o guardaria em si.

quinta-feira, 3 de março de 2011

PEQUENA NOTA CURIOSA SOBRE A LÍNGUA MARANHENSE

Pequena nota curiosa sobre o Maranhão ensinada por Ellis Mara




Ela é toda pequenininha, uma bonequinha de pano de 13 anos, mas tem 19. Veio me mostrar a tarefa de interpretação de texto cujo tema é consumismo... cursa o EJA na 5ª série. “Bom dia, Ellis” (ela diz Éllis). Começa a falar depressa e eu pouco ou quase nada entendo. Pedi a ela o caderno, para a correção da tarefa. “Vamos lá, Ellis, desculpe, Éllis!”

“No consumismo, é só comprá e comprá, dispois não tem dinhero pra pagá.”

Eu tento: “Ellis, quer dizer, Éllis, não se escreve comprá e pagá, é comprar e pagar”. E ela: “Né, não, lá no Maranhão...eu aprendi, é, professora, D. Zilda me ensinô, é comprá e pagá, a senhora tá errada, é sim!”

Tento de novo: “Mas, Ell..Éllis, você não pode escrever como você fala, essas palavrinhas terminam em r, entendeu? Vou lhe mostrar no dicionário....”

“Ah, é não, a sinhora é muitcho da ruim professora, a sinhora tá mi insinano errado, a dona Zilda mi deu aula a vida intera e me insinô assim, é assim, sim.”

Peço ajuda a São Tomé, abro o dicionário: pagar (vtdi)...Éllis vê, olha de novo e de novo e me responde naquele sotaque delicioso....”olhe, professora, intão, lá no Maranhão, a língua é diferente.”