sábado, 17 de setembro de 2011

Sada

Uma das lembranças mais saborosas da minha infância era a casa de minha avó. Uma casa bem simples, mas arejada e que tinha um pé de figo contornado por uma pequena base onde eu me sentava à sombra para brincar com as formigas.
Minha avó mal falava o português, mas nossa comunicação era intensa. Lembro-me dos olhos dela, sempre tão úmidos e doces, do seu nariz, dos cabelos brancos e longos, seguros por uma grande presilha por detrás da cabeça. Lembro-me da expressão longínqua de seu sorriso, de quem estava sempre olhando para uma Síria guardada nos quibes aromáticos e saborosos que ela escondia para os netos num caldeirãozinho coberto com um pano de prato, bem acima do fogão a lenha, no canto daquela cozinha atrás de cuja porta eu tanto me escondia para brincar. Eu chegava e vóóóóóó... abraçava seus quadris, bem à altura dos meus braços. “Ayuni”, ela me dizia, e me beijava a cabeça, o rosto e segurava minhas mãos, na época tão pequenas e que ora serviam de caminhos de passeio para as formigas, ora as torturavam- pobres formigas. Minha mãe me deixava lá algumas manhãs e minha avó escolhia arroz numa baciazinha de alumínio meio amassada nos cantos e eu era a própria casquinha do arroz despejando perguntas: de onde ela havia vindo, por que falava tão diferente e ela respondia algo que eu não entendia e me olhava com tanto carinho que me atravessava e eu sentia aquele cheiro tão dela, aquele cheiro que muitas vezes hoje me vejo procurando em minha mãe, em minha tia...Eu a via tão grande, tão quente...ela deixava que eu mexesse em seus cabelos e, um dia, eu os pedi para ela e ela me disse que, quando se fosse desse mundo, eu poderia guardá-los.
Minha avó se foi, não me deixaram vê-la, eu era pequena... fiquei com esse vazio. Recordo-me quando o Guidinho, nosso vizinho, conversava com minha irmã e dizia que havia vindo do hospital e ela estava mesmo muito mal. Eu estava no colo de minha irmã, descalça, como sempre eu brincava e meus chinelos estavam virados e eu corri para tentar desvirá-los, minha irmã me segurou...eu expliquei o que pretendia e ela se adiantou "não adianta mais, Cláudia” e eu chorava e chorava,  pensando que se eu desvirasse os chinelos, minha avó viveria para sempre, e viria, como toda noite ela fazia, ver televisão na minha casa e eu poderia, como toda vez eu fazia,  deitar minha cabeça em seu colo cheiroso de tempero de esfirra, de quibe, de acelga, de farinha, um colo com o aroma de uma mistura de coisas que me transportavam para um lugar de descanso e de ternura, tão milenar e tão presente. Minha avó morreu em frente a minha casa quando atravessava a rua. Ela me beijou e foi embora e eu só ouvi um barulho e nunca mais a vi. Ninguém sabe, nem eu sei como consegui ou de quem os peguei, mas os chinelos que ela usava naquele dia estão guardados aqui comigo, descansando numa caixa, virados para cima.

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