Vento tempo,
Vendaval,
arrastou meu chão,
Roubou meu sal,
me deixou nua
na gélida lua
me levou você
Por quê?
E eu nem sei mais quem sou....
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
Sada
Uma das lembranças mais saborosas da minha infância era a casa de minha avó. Uma casa bem simples, mas arejada e que tinha um pé de figo contornado por uma pequena base onde eu me sentava à sombra para brincar com as formigas.
Minha avó mal falava o português, mas nossa comunicação era intensa. Lembro-me dos olhos dela, sempre tão úmidos e doces, do seu nariz, dos cabelos brancos e longos, seguros por uma grande presilha por detrás da cabeça. Lembro-me da expressão longínqua de seu sorriso, de quem estava sempre olhando para uma Síria guardada nos quibes aromáticos e saborosos que ela escondia para os netos num caldeirãozinho coberto com um pano de prato, bem acima do fogão a lenha, no canto daquela cozinha atrás de cuja porta eu tanto me escondia para brincar. Eu chegava e vóóóóóó... abraçava seus quadris, bem à altura dos meus braços. “Ayuni”, ela me dizia, e me beijava a cabeça, o rosto e segurava minhas mãos, na época tão pequenas e que ora serviam de caminhos de passeio para as formigas, ora as torturavam- pobres formigas. Minha mãe me deixava lá algumas manhãs e minha avó escolhia arroz numa baciazinha de alumínio meio amassada nos cantos e eu era a própria casquinha do arroz despejando perguntas: de onde ela havia vindo, por que falava tão diferente e ela respondia algo que eu não entendia e me olhava com tanto carinho que me atravessava e eu sentia aquele cheiro tão dela, aquele cheiro que muitas vezes hoje me vejo procurando em minha mãe, em minha tia...Eu a via tão grande, tão quente...ela deixava que eu mexesse em seus cabelos e, um dia, eu os pedi para ela e ela me disse que, quando se fosse desse mundo, eu poderia guardá-los.
Minha avó mal falava o português, mas nossa comunicação era intensa. Lembro-me dos olhos dela, sempre tão úmidos e doces, do seu nariz, dos cabelos brancos e longos, seguros por uma grande presilha por detrás da cabeça. Lembro-me da expressão longínqua de seu sorriso, de quem estava sempre olhando para uma Síria guardada nos quibes aromáticos e saborosos que ela escondia para os netos num caldeirãozinho coberto com um pano de prato, bem acima do fogão a lenha, no canto daquela cozinha atrás de cuja porta eu tanto me escondia para brincar. Eu chegava e vóóóóóó... abraçava seus quadris, bem à altura dos meus braços. “Ayuni”, ela me dizia, e me beijava a cabeça, o rosto e segurava minhas mãos, na época tão pequenas e que ora serviam de caminhos de passeio para as formigas, ora as torturavam- pobres formigas. Minha mãe me deixava lá algumas manhãs e minha avó escolhia arroz numa baciazinha de alumínio meio amassada nos cantos e eu era a própria casquinha do arroz despejando perguntas: de onde ela havia vindo, por que falava tão diferente e ela respondia algo que eu não entendia e me olhava com tanto carinho que me atravessava e eu sentia aquele cheiro tão dela, aquele cheiro que muitas vezes hoje me vejo procurando em minha mãe, em minha tia...Eu a via tão grande, tão quente...ela deixava que eu mexesse em seus cabelos e, um dia, eu os pedi para ela e ela me disse que, quando se fosse desse mundo, eu poderia guardá-los.
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