domingo, 25 de julho de 2010

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA




Estávamos conversando, meu pai e eu, lembrando muitos fatos. Tomei coragem e perguntei-lhe, finalmente, por que não havia nenhuma foto do casamento dele com minha mãe, juntos há mais de 57 anos. Meu pai é desses velhos que têm uma memória invejável, um assunto se une a outro numa grande cadeia ora harmoniosa, ora cheia de ziguezagues que nos deixam tontos, já que, muitas vezes, o “narrador” perde-se entre verdades e mentiras que ele inventa só para dar mais ênfase àquilo que ele quer ressaltar nos velhos casos dos seus mais de 80 anos de vida.

Sua resposta foi breve, o que me surpreendeu.. Naquele tempo, não era fácil ter dinheiro para se pagar um álbum, assim, quando o fotógrafo foi mostrar as fotos da união que teve boleros e tangos na sala e na cozinha durante muitas décadas, naquele momento, ele não tinha dinheiro para pagá-las e assim, o casamento seguiu sem uma única foto de recordação do tão sonhado momento de tantas jovens dos anos 50.

Senti que ele contou-me isso com um certo nó na garganta e que, se pudesse voltar no tempo, teria feito alguma coisa para ter conseguido ficar, pelo menos, com uma mísera foto preto e branco e que, hoje, estaria certamente amarelada. Ele foi contando-me os detalhes da cerimônia, o cartório, a igreja, o que o padre disse e o beijo no altar que minha mãe esqueceu-se de dar...e tudo foi-se desenhando diante dos meus olhos. Meu pai olhava meio de lado para minha mãe, sentada passivamente na poltrona ao lado, perdida no seu mundo de esquecimento e fuga. Percebi os olhos dele e os meus marejaram também.

Penso que o que passou pela mente dele é que, talvez uma foto de casamento pudesse fazer com que minha mãe retomasse o que ela foi um dia, lembrasse de sua vida, de quem era e conseguisse colorir a foto amarelada que só passou pelos olhos do meu pai e de minha mãe por alguns instantes, uma foto de vida breve, tão breve como a memória relâmpago que minha mãe hoje nos delineia.

Não, meu pai, nem mesmo a ilusão da foto amarelada mudaria a verdade que nos é fotografada a cada dia.

25/07/2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

NO TEMPO CERTO




“Tempo, tempo, tempo”, o grande algoz. Rouba-nos a vida a cada segundo e ao mesmo tempo, entrega-nos a aventuras e a aprendizados; alguns, prazerosos, outros amargos e incorrigíveis. Não, pensando melhor, não é um algoz: é um paradoxo. Neste exato momento, vivemos o presente e, metalinguisticamente, na linha debaixo, neste texto, o presente faz-se passado e foi futuro na linha anterior.

Viver esse paradoxo é a grande aventura e a oportunidade de fazermos dessa aventura não uma conquista pessoal, mas uma mudança de paradigma. Ainda que pareça um clichê de auto-ajuda, há que pensar no que vivemos para que saibamos nos posicionar neste presente que já foi futuro. É necessário presenciar esse presente e tentar fazê-lo acontecer da melhor maneira, provável ou improvável: amar, viver, ajudar, correr, brigar, perder, vencer, cair, seguir; e nesse seguir, cuidar para que o futuro não chegue como se fora um deus resoluto de todas as nossas angústias daquele presente. O futuro chega ligeiro, tão presente que nem percebemos e o que traz na bagagem é a poeira do que fizemos ou resquícios do que deixamos de fazer.

Temos de viver esse futuro- presente e nele tentar realizar a vida da maneira mais coletiva, já que o tempo é de todos e para todos. Assim, quando o presente for futuro, as novas gerações, que hoje ainda não podem avaliá-lo como presente, poderão sentir que cuidamos dele no tempo certo.



terça-feira, 13 de julho de 2010

Pequenos poemas incidentais

Eclipse

Lua branca,

Leve lua.

Lua bela,

Nua lua.

É travessa,

Tão menina!

Brinca de esconde-esconde

Na sombra da Terra.

16/08/89


Arrumação

Papéis trazem lembranças

Antigas, mas que parecem

Estar aqui, agora.

É engraçado

Como o tempo brinca com a gente

O ontem parece tão perto,

Tão perto...

Papéis trazem pessoas

Que se desenham,

Se moldam,

Nos fazem rir

E chorar...

E aí, molhamos o papel.

05/09/2002

sexta-feira, 9 de julho de 2010

El vuelo


Creo que es hambre
Lo que mi alma y cuerpo
Sienten
Cuando recuerdan tus ojos
Y tu sonrisa,
Y tu tiempo. 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

BRASIL X HOLANDA


Meu filho não desgrudava os olhos da tela. Deliciava-se com os dribles de Robinho e as tentativas de Kaká. Eu irritava-me com a ausência nada fabulosa de Luiz Fabiano que, não sei por que, gratuitamente nunca me convenceu, tem cara de paranoico, sei lá (desculpe-me a franqueza). Lembra-me os alunos sonsos que esperam alguém terminar para passarem a cola, só para que nem tenham o trabalho de pensar.

O gol no primeiro tempo deu uma sensação de alívio – muito parecido com a que me dá quando tenho a impressão de que o PSDB finalmente não vai continuar no governo estadual de São Paulo. Minha nossa, os alunos vão para a escola pública por mil motivos, menos para estudar. E os que querem aprender são sufocados, como bons atacantes que não têm espaço para avançarem porque a defesa do time adversário é pipoqueira e o pior... muito cruel.

O jogo segue bonito, jabulani parece que já foi dominada, não é mais o animal selvagem na arena da África. Foi domesticada pelos pés de 32 países diferentes. Coitada, não tinha escolha. E hoje camisas laranja ardentes e azuis tentam conduzi-la à rede fatal.

Segundo tempo, meu filho se desespera, os olhos adolescentes e esperançosos marejam ao término do segundo gol alaranjado. Se ele pudesse, teclaria o controle remoto do tempo só para continuar tendo a alegria momentânea de noventa minutos quando se ganha e se esquece de tudo ao redor. A filha mais velha é supersticiosa, a do meio faz promessa. O marido sai da sala, sem rumo, feito uma jabulani desgovernada: vuvuzelas mudas aos meus ouvidos. Só minha cachorra daschund parece indiferente, talvez torça amanhã para a Alemanha.

Que coisa louca é o futebol! Choro, decepção...a vida é cheia disso e eu sinceramente espero que no meu tempo regulamentar ou até mesmo no tempo de acréscimo neste jogo inusitado de viver, possa ver meus filhos e aqueles meninos, atacantes insistentes na sala de aula, driblando a defesa adversária pipoqueira e oportunista e marcando muitos gols, seja em qual campo for, desde que seja um jogo limpo, com a garra e a vontade de quem não briga à toa, mas também não abaixa a cabeça. A vida tem muitos jogos. Vamos a eles. 02/07/2010





quinta-feira, 1 de julho de 2010

JARDIM FLORESCENDO...

Jardim florescendo...

Manacá-da-serra- sm (tupi manaká) Bot Nome dado a vários arbustos ou pequenas árvores, da família das Solanáceas, particularmente às espécies Brunfelsia hoopeana e B. australis. Suas flores, geralmente solitárias, são violáceas ou roxas, quando novas, mas com o passar das horas adquirem um róseo desmaiado e, finalmente, passam ao branco, o que torna a planta curiosamente ornamental e por isso muito cultivada em jardins (Michaelis- Moderno Dicionário Online)


Meu manacá-da-serra que plantei na semana passada deu flores. Que lindo! Algumas miudinhas, brancas, meio arroxeadas, outras mais escuras, mais roxas, mais vivas. Em princípio, parecia que ele não vingaria, estava murchinho e sem graça no canto da floreira, mas agora está viçoso e feliz.

Eu não sabia se a terra estava bem preparada, se eu a havia tratado como deveria antes que recebesse o manacá. Não sabia se o espaço era suficiente, se haveria luz, calor e sombra adequados, se eu conseguiria ter tempo para olhar para ele, vê-lo crescer, retirar dele as formigas intrusas que porventura pudessem querer machucá-lo ou ainda apreciar uma borboleta ou um beija-flor que nele quisesse pousar. Mas ele está crescendo...

Está tão bonito e eu espero poder olhar para ele todos os dias, ainda que seja apenas por alguns segundos, mas que ele perceba que a vida que nele brota é a mesma que eu desejo que, a cada dia, brote também dentro de mim, mesmo que haja chuva intensa ou sol escaldante. E, caso alguém tente arrancá-lo de lá à força, que ele se enraíze ainda mais e que, assim, arraigado à terra, possa fortalecer-se ainda mais.

Eu nunca havia plantado um manacá... e ele está tão bonito. Pode ser que seja uma estupidez  importar-me com isso, parece uma dessas pequenas bobagens que nos encantam e que ninguém entende, mas eu o plantei com o coração, acho que foi por isso, e na sua raiz ele carrega um pouco da muita vontade que tenho de viver. 30/06/2010