domingo, 26 de setembro de 2010

INUSITADO


Recebi este prêmio de um escritor incrível e um grande amigo. Autor do genial  http://ooficiodoocio.blogspot.com/  , deu-me a ideia de fazer este blog , incentivou-me quando eu lhe disse que talvez eu não tivesse tempo e agora me dá esse presente. Obrigada Jorge,
Jorge de Barros
mostrou-me atalhos
para o reencontro com palavras novas e velhas.
Ideias
e ócio necessário.

Sei que devo repassar o prêmio a mais dez blogs que sinto próximos, mas ainda sou blogueira iniciante, necessito observação e um tempinho a mais....Aguardem!

PAPO DE CRIANÇA

As meninas

Cecília Meireles



Arabela

abria a janela.

Carolina

erguia a cortina.

E Maria

olhava e sorria:

"Bom dia!"

Arabela

foi sempre a mais bela.

Carolina

a mais sábia menina.

E Maria

Apenas sorria:

"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina

que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade

é Maria, Maria, Maria,

que dizia com voz de amizade:

"Bom dia!"



Três crianças (22/09/2010)

Luara enfeitava a tiara,

Mayra, tão cedo já lia,

E João brincava no chão:

Começava o dia!



Luara, a mais arteira,

Mayra, a mais crítica menina

E João se divertia:

Seguia o dia!



Pensemos em cada criança

Que naquela casa crescia,

Luara, sempre encantada,

Mayra, doce-arredia,

Mas um menino também brilhava,

Corria, cantava, nos divertia

E covinhas em suas bochechas surgiam

Toda vez que ele sorria!

Que saudade desses dias!

Mayra, Luara e João

Mayra

Clarice Lispector diz que “ser ruiva é uma revolta involuntária”. Mayra, minha filha ruiva, aos 4 anos de idade, após uma pequena discussão comigo, disse-me: ”Vou embora desta casa, vou vender sanduíche na praia”. Olhei sua mochilinha de viagem, estampada com a sereia ruiva Ariel: nela havia uma moeda, uma calcinha e uma boneca.

Aos 7 anos, quando eu estava amamentando o João, Mayra com os olhinhos curiosos me espiava a meia distância. Eu a chamei: “Mah, olha só a mãozinha do seu irmão. Veja os dedinhos que pequenininhos, que bonitinhos”. E ela, chegando mais perto: ”Mãe, ele tem cerca de trezentos ossos, quando ele for crescendo, os ossinhos vão juntando e aí diminui o número!” Eu perguntei onde ela havia ouvido aquilo: “Ué, no meu livro da escola, mãe!”

Pensei que ela seria médica, tão precisa, tão racional, mas ela escolheu ser professora. Bem, pensando melhor, não poderia ser diferente: era extremamente didática.

Luara

Aos 3 anos, quando eu estava grávida do João e todos perguntavam: “Será menino ou menina?” E ela, filosoficamente: “Ué, é só olhar, se for menina, vai nascer de lacinho!”

Aos 4 anos, meu irmão comentando a música da cantora Leila Pinheiro e ela corrigiu-o: ”Tio Jorginho, é Leila Pinheira, porque é mulher!”

Aos 7 anos, após ler uma placa de supermercado: “Mãe, eu sei que o frango não tá com gripe, mas o que é um frango resfriado?”

João

Aos 3 anos, na praia de Itanhaém: “Mãe, que é isso?” “É uma bolacha do mar!” “Pode comer?!!!????”

Aos 5 anos, quando colecionava dinossauros: “João, deixa esse dinossauro aí e vem comer um franguinho! Ou traga o seu amigo carnívoro pra almoçar com você”. “Mãe, esse dinossauro é um brontossauro, ele não come carne.”

Aos 7 anos: “Mãe, o que é um pontinho verde no canto da cozinha?” “Não sei!”

“Uma ervilha de castigo!”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DESCRIÇÃO

em constante construção...

Ela vive perdida em seus afazeres domésticos: de trabalho, de orgulho, de sexo, de medo. Corre de um lado para o outro, teria de ter um clone para resolver tantas coisas ao mesmo tempo. Enquanto dirige, atende celular, passa batom, máscara para cílios, lápis nos olhos nos sinais fechados. Não há tempo para se olhar por dentro.

Algumas vezes bate o carro, não por causa das ações costumeiras, mas por ver um outdoor bonito, ler um cartaz, olhar para o sol que está surgindo ou para a lua branca pintada no escuro. É assim, uma ligada-desligada. No trabalho, oscila entre risos e desgastes, telefones e folhas, cafés e cigarros.

Em casa é vinho e cerveja, água e óleo na panela e as cebolas cortadas, desculpas pelos sonhos atirados nos vãos do tempo. O que pode fazer? Mudar de vida? E coragem para isso? Não tem. Muitas coisas em jogo: pai, filho e espírito santo: amém. Não pode. Também, já se sente meio velha, sei lá, começar de novo no meio do caminho??? Difícil, não é? Ou, difícil não é?

Segue. Lê, lê, corre de novo, lá e cá. Emociona-se vez ou outra com bobagens sem sentido e música boa lhe arrepia. Às vezes, excita-se com o vento, meio Macabéa, devota fiel e ateia. Mas não quer epifania com sangue escorrendo, isso, não. A não ser que um vampiro muito lindo voe até sua janela, estoure as grades e a seduza sem pressa, bebendo-a gota a gota. Nem sentirá remorso pela traição do pensamento recorrente.

É assim todo dia. Críticos radicais dizem que a Bethânia desafina, e daí? Gosta de ouvir a voz inconfundível “o meu corpo é uma fogueira, enquanto ele dorme pesado, eu rolo sozinha na esteira”, ou Edu Lobo “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”, ou Leo Gandelman (o som do sax, ai, o som do sax!). Música mata a fome, a sede, faz suar e refresca. Esquece a panela no fogo, tem de jogar fora o feijão.

Beija seu cão, abraça-o, é um cão suave, manso, macio. Entende o que ela sente, o olhar dele revela.

Ela segue em seu dia descrito, pálido, aflito...Até que pega uma folha e o reescreve em preto no relento do seu branco vadio.

sábado, 18 de setembro de 2010

Obscenidades na sala de aula?


Nós, professores, de um modo geral, vivemos pedindo aos alunos para guardarem dentro das mochilas as Larissas Riquelmes, as mulheres melancias e melões estampadas por aí, mas esta semana aconteceu algo muito inusitado: o governo estadual ofereceu três obras literárias aos alunos e uma delas com um conto bastante picante de Inácio de Loyola Brandão: Obscenidades para uma dona de casa. Uma capa nua para adolescentes entre 16 e 18 anos: 40 alunos abrindo o livro Os Cem Melhores Contos na página 471 para lerem deliciosas lascívias que ocultam o lirismo latente do escritor.

Infelizmente não foi pela poesia de Loyola que os alunos se alvoroçaram, mas pelas palavras de ordem que ele inseriu em seu texto para contar a história de uma dona de casa perdida entre a vida pacata com um marido metódico e viciado em meias perfeitas e bem dobradas e os desejos mais intrínsicos que ela tenta ocultar de sua própria imaginação; uma mulher tentando reinventar a vida para reinventar-se também. Entre “cacetes e bundinhas”, há a história de alguém que, como tantas mulheres, vive presa a conceitos estabelecidos e julgamentos preconceituosos.

O mais estranho foi ver o tom de desprezo dos alunos. Quem diria....eles chegaram a dizer que o texto era pornográfico, onde já se viu, professora! É, vivemos num país moralista às avessas. Constantemente, há mulheres nuas, siliconadas ou não, dançando na tela da tevê a qualquer hora do dia ou da noite. Deparamo-nos insistentemente com revistas pornôs estampadas nas bancas e outras nem pornôs, mas cujos títulos de reportagens sugerem a luxúria a toda prova. Sem contar as letras de incontáveis funks e raps que se ouvem ao máximo volume passando por rádios de alguns carros ou em bailes por aí.

E, de repente, Inácio de Loyola transforma-se em autor pornô (pelo menos, foi isso que os alunos disseram). Bem, bem... talvez aquela história de que "uma imagem vale mais do que mil palavras" caia por terra quando a palavra é bem escrita e incisiva. As palavras realmente ganham uma força incomensurável quando lapidadas por um grande artesão.

Pedi para que lessem o texto em casa, com calma, que tentassem se colocar no lugar da personagem, imaginei que assim, talvez, eles pudessem enxergar a angústia ao redor da vida dela. Foi pior. A pobre personagem foi tachada de sem-vergonha, * #+»×~///? "°¨¨#... “onde já se viu uma mulher casada fazer isso”. É, vivemos num país moralista e de uma falsidade que transcende a ficção. Bem...é verdade que também há poucos conhecedores de arte e de artesãos.

O jeito é torcer para que haja cada vez menos homens viciados em meias bem dobradas e sem furos. Ou a mulher terá suas cartas imaginadas confiscadas pelos próprios sonhos e nem o melhor artesão de palavras conseguirá fazer com que esta mulher possa ser compreendida.