em constante construção...
Ela vive perdida em seus afazeres domésticos: de trabalho, de orgulho, de sexo, de medo. Corre de um lado para o outro, teria de ter um clone para resolver tantas coisas ao mesmo tempo. Enquanto dirige, atende celular, passa batom, máscara para cílios, lápis nos olhos nos sinais fechados. Não há tempo para se olhar por dentro.
Algumas vezes bate o carro, não por causa das ações costumeiras, mas por ver um outdoor bonito, ler um cartaz, olhar para o sol que está surgindo ou para a lua branca pintada no escuro. É assim, uma ligada-desligada. No trabalho, oscila entre risos e desgastes, telefones e folhas, cafés e cigarros.
Em casa é vinho e cerveja, água e óleo na panela e as cebolas cortadas, desculpas pelos sonhos atirados nos vãos do tempo. O que pode fazer? Mudar de vida? E coragem para isso? Não tem. Muitas coisas em jogo: pai, filho e espírito santo: amém. Não pode. Também, já se sente meio velha, sei lá, começar de novo no meio do caminho??? Difícil, não é? Ou, difícil não é?
Segue. Lê, lê, corre de novo, lá e cá. Emociona-se vez ou outra com bobagens sem sentido e música boa lhe arrepia. Às vezes, excita-se com o vento, meio Macabéa, devota fiel e ateia. Mas não quer epifania com sangue escorrendo, isso, não. A não ser que um vampiro muito lindo voe até sua janela, estoure as grades e a seduza sem pressa, bebendo-a gota a gota. Nem sentirá remorso pela traição do pensamento recorrente.
É assim todo dia. Críticos radicais dizem que a Bethânia desafina, e daí? Gosta de ouvir a voz inconfundível “o meu corpo é uma fogueira, enquanto ele dorme pesado, eu rolo sozinha na esteira”, ou Edu Lobo “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”, ou Leo Gandelman (o som do sax, ai, o som do sax!). Música mata a fome, a sede, faz suar e refresca. Esquece a panela no fogo, tem de jogar fora o feijão.
Beija seu cão, abraça-o, é um cão suave, manso, macio. Entende o que ela sente, o olhar dele revela.
Ela segue em seu dia descrito, pálido, aflito...Até que pega uma folha e o reescreve em preto no relento do seu branco vadio.

Nossa Cláudia... Muito bom, muito bom!
ResponderExcluirAdoro ler textos desse tipo.
Não consigo ainda produzir um tão belo, quem sabe um dia?
Com prática e vontade se dá um jeito!
Beijos
Caetano.
Caetano, você é poeta, meu aluno querido!E seus textos são muito bons.
ResponderExcluirObrigada.
bjs