Nós, professores, de um modo geral, vivemos pedindo aos alunos para guardarem dentro das mochilas as Larissas Riquelmes, as mulheres melancias e melões estampadas por aí, mas esta semana aconteceu algo muito inusitado: o governo estadual ofereceu três obras literárias aos alunos e uma delas com um conto bastante picante de Inácio de Loyola Brandão: Obscenidades para uma dona de casa. Uma capa nua para adolescentes entre 16 e 18 anos: 40 alunos abrindo o livro Os Cem Melhores Contos na página 471 para lerem deliciosas lascívias que ocultam o lirismo latente do escritor.
Infelizmente não foi pela poesia de Loyola que os alunos se alvoroçaram, mas pelas palavras de ordem que ele inseriu em seu texto para contar a história de uma dona de casa perdida entre a vida pacata com um marido metódico e viciado em meias perfeitas e bem dobradas e os desejos mais intrínsicos que ela tenta ocultar de sua própria imaginação; uma mulher tentando reinventar a vida para reinventar-se também. Entre “cacetes e bundinhas”, há a história de alguém que, como tantas mulheres, vive presa a conceitos estabelecidos e julgamentos preconceituosos.
O mais estranho foi ver o tom de desprezo dos alunos. Quem diria....eles chegaram a dizer que o texto era pornográfico, onde já se viu, professora! É, vivemos num país moralista às avessas. Constantemente, há mulheres nuas, siliconadas ou não, dançando na tela da tevê a qualquer hora do dia ou da noite. Deparamo-nos insistentemente com revistas pornôs estampadas nas bancas e outras nem pornôs, mas cujos títulos de reportagens sugerem a luxúria a toda prova. Sem contar as letras de incontáveis funks e raps que se ouvem ao máximo volume passando por rádios de alguns carros ou em bailes por aí.
E, de repente, Inácio de Loyola transforma-se em autor pornô (pelo menos, foi isso que os alunos disseram). Bem, bem... talvez aquela história de que "uma imagem vale mais do que mil palavras" caia por terra quando a palavra é bem escrita e incisiva. As palavras realmente ganham uma força incomensurável quando lapidadas por um grande artesão.
Pedi para que lessem o texto em casa, com calma, que tentassem se colocar no lugar da personagem, imaginei que assim, talvez, eles pudessem enxergar a angústia ao redor da vida dela. Foi pior. A pobre personagem foi tachada de sem-vergonha, * #+»×~///? "°¨¨#... “onde já se viu uma mulher casada fazer isso”. É, vivemos num país moralista e de uma falsidade que transcende a ficção. Bem...é verdade que também há poucos conhecedores de arte e de artesãos.
Pedi para que lessem o texto em casa, com calma, que tentassem se colocar no lugar da personagem, imaginei que assim, talvez, eles pudessem enxergar a angústia ao redor da vida dela. Foi pior. A pobre personagem foi tachada de sem-vergonha, * #+»×~///? "°¨¨#... “onde já se viu uma mulher casada fazer isso”. É, vivemos num país moralista e de uma falsidade que transcende a ficção. Bem...é verdade que também há poucos conhecedores de arte e de artesãos.
O jeito é torcer para que haja cada vez menos homens viciados em meias bem dobradas e sem furos. Ou a mulher terá suas cartas imaginadas confiscadas pelos próprios sonhos e nem o melhor artesão de palavras conseguirá fazer com que esta mulher possa ser compreendida.
Uau!
ResponderExcluirOlha, como professor do Ensino Médio sei bem o que é isso, tenho até um aluno monarquista! (é sério). Mas o que mais gostei do texto foi o trabalho de artesã. Que bom que posso me gabar de ter te convencido a fazer esse blog.
Um beijo.
Oi, Jorge, obrigada! Pelo jeito, alunos monarquistas não são "privilégios" de grandes centros, o interior também está cheio deles (cheio ambiguamente falando, *rs).
ResponderExcluirOlhe, eu estou amando escrever e esse prazer até então esquecido realmente só ressurgiu devido a sua genial ideia. Muito obrigada mesmo.
Escrevamos, meu amigo, escrevamos! Canetas permanentes e espátulas escondidas nos aguardam!
Beijos