domingo, 26 de setembro de 2010

PAPO DE CRIANÇA

As meninas

Cecília Meireles



Arabela

abria a janela.

Carolina

erguia a cortina.

E Maria

olhava e sorria:

"Bom dia!"

Arabela

foi sempre a mais bela.

Carolina

a mais sábia menina.

E Maria

Apenas sorria:

"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina

que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade

é Maria, Maria, Maria,

que dizia com voz de amizade:

"Bom dia!"



Três crianças (22/09/2010)

Luara enfeitava a tiara,

Mayra, tão cedo já lia,

E João brincava no chão:

Começava o dia!



Luara, a mais arteira,

Mayra, a mais crítica menina

E João se divertia:

Seguia o dia!



Pensemos em cada criança

Que naquela casa crescia,

Luara, sempre encantada,

Mayra, doce-arredia,

Mas um menino também brilhava,

Corria, cantava, nos divertia

E covinhas em suas bochechas surgiam

Toda vez que ele sorria!

Que saudade desses dias!

Mayra, Luara e João

Mayra

Clarice Lispector diz que “ser ruiva é uma revolta involuntária”. Mayra, minha filha ruiva, aos 4 anos de idade, após uma pequena discussão comigo, disse-me: ”Vou embora desta casa, vou vender sanduíche na praia”. Olhei sua mochilinha de viagem, estampada com a sereia ruiva Ariel: nela havia uma moeda, uma calcinha e uma boneca.

Aos 7 anos, quando eu estava amamentando o João, Mayra com os olhinhos curiosos me espiava a meia distância. Eu a chamei: “Mah, olha só a mãozinha do seu irmão. Veja os dedinhos que pequenininhos, que bonitinhos”. E ela, chegando mais perto: ”Mãe, ele tem cerca de trezentos ossos, quando ele for crescendo, os ossinhos vão juntando e aí diminui o número!” Eu perguntei onde ela havia ouvido aquilo: “Ué, no meu livro da escola, mãe!”

Pensei que ela seria médica, tão precisa, tão racional, mas ela escolheu ser professora. Bem, pensando melhor, não poderia ser diferente: era extremamente didática.

Luara

Aos 3 anos, quando eu estava grávida do João e todos perguntavam: “Será menino ou menina?” E ela, filosoficamente: “Ué, é só olhar, se for menina, vai nascer de lacinho!”

Aos 4 anos, meu irmão comentando a música da cantora Leila Pinheiro e ela corrigiu-o: ”Tio Jorginho, é Leila Pinheira, porque é mulher!”

Aos 7 anos, após ler uma placa de supermercado: “Mãe, eu sei que o frango não tá com gripe, mas o que é um frango resfriado?”

João

Aos 3 anos, na praia de Itanhaém: “Mãe, que é isso?” “É uma bolacha do mar!” “Pode comer?!!!????”

Aos 5 anos, quando colecionava dinossauros: “João, deixa esse dinossauro aí e vem comer um franguinho! Ou traga o seu amigo carnívoro pra almoçar com você”. “Mãe, esse dinossauro é um brontossauro, ele não come carne.”

Aos 7 anos: “Mãe, o que é um pontinho verde no canto da cozinha?” “Não sei!”

“Uma ervilha de castigo!”

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