terça-feira, 29 de junho de 2010

Aterrissagem



                                                                           Lembrando "No aeroporto" de Drummond

_Você é a minha mãe! É assim que ela me diz toda vez, na hora do banho. Olha-me sorrindo, com o sorriso vazado pela ausência de uns dentes e o incrível olhar de quem ainda tem muito para descobrir nesta vida.

_ Eu vim dar banho em você, linda.

Vou tirando-lhe as peças de roupa com cuidado, a fralda está limpinha ainda. Banho seu corpo branquinho, a pele macia e molinha, os cabelos curtinhos. _Cuidado com minha orelha, meu brinco, dói. Vou assim banhando-a devagar, com o chuveirinho sobre sua pele e olhando-a com paixão. Ela reaprende a banhar-se a cada dia, como se nunca fizera isso antes. Paciência. Ajudo-a para que lave os braços, o pescoço, a barriga branquinha, tudo enfim....sempre do mesmo jeito, no mesmo ritmo. Quando fecho o chuveiro, ela _ Que delícia, que banho gostoso! Você é tão bonita! Eu te amo! Você é a minha mãe! E eu sempre respondo ao seu carinho despercebido:_Você que é a coisa mais linda do mundo! Eu também te amo, viu?

Passar a toalha sobre seu corpo faz com ela se arrepie e, por ser branquinha demais, algumas vezes, os olhos ficam avermelhados por causa da água ou do xampu. Em alguns dias ela fica brava comigo, grita; em outros, fica sorrindo e repetindo:_Eu te amo, você é a minha mãe!

Quando visto suas roupas também é bem devagar, ela apóia a pequena mão na parede e eu acomodo em seu corpo pequeno e miúdo algumas peças leves para que ela fique confortável e feliz. Ela é tão pequenininha, não é à toa que ganhou o apelido de pinguinho, dado pelo meu pai.

_Ela fez tanta arte hoje, virou os porta-retratos de ponta cabeça, jogou restos de comida na pia, escondeu a chave do portão, xingou o entregador de gás. Ela anda muito arteira- disse-me meu pai quando cheguei. Meu pai cuida dela a maior parte do dia. Apelidou-a de pinguinho logo que se casaram.

Hoje ela está com uma das demências que acometem as pessoas idosas que às vezes trabalharam uma vida toda e ficamos meio sem compreender por que isso tudo acontece. Ela é tão linda. Ela é a minha mãe. 29/06/2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Avesso mudo mundo









Visionários!!!!!!Neste blog há mentiras e verdades, literais e literárias. Eu já comecei a contar as minhas, conte-nos a sua!






Amém


Ontem, fim de semana, resolvi fazer o que o cardiologista ordenou-me incisivamente e caminhei um pouco. Realmente é muito bom caminhar, como diz a crônica de Antônio Prata utilizada pela UNESP deste ano. Acredito que, se estivermos sozinhos, principalmente e, sem fones de ouvido, driblando qualquer distração paralela, a atividade pode ser ainda mais instrutiva e prazerosa.

Eu caminhava e pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo quando vi um grupo de jogadores de futebol num canto, em círculo, falando baixinho, concentrando-se antes da entrada em um campo de pouca grama e muita terra. Da fala quase murmurada, começaram, de repente, a rezar “Pai-nosso, que estais no céu/santificado seja o vosso nome/venha a nós o vosso reino/seja feita a vossa vontade/....”. O tom alto e ritmado de uma grotesca marcha militar levou-me a pensar se Deus realmente gostaria de ouvir a canônica prece naquele tom retumbante e martelado. Ao voltar a atenção para mim, percebi-me, também, num passo aqui e outro ali, ritmando a prece no tom que meus pés solavam.

Acelerei o passo imaginando se, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, quando o poder paralelo executa alguém, no alto do morro, fazem-no rezando em algum ritmo por eles apreciado. Como será que eles transformariam a passagem “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal?” Não seria de admirar que isso ocorresse, já que, tudo, até as maiores atrocidades, neste país católico, é feito em nome de Deus. Políticos desviam verbas e depois falam em nome de Deus. É possível que, ao depositarem em suas contas clandestinas, imaginem que estejam fazendo algum tipo de caridade. Pobres ou milionários jogadores de futebol intitulam-se atletas de Cristo. Será que, vestidos com camisas da Nike, Olympikus ou calçando uma chuteira Adidas, auxiliam-No a carregar a cruz em menos tempo durante o percurso do calvário?

Tudo, absolutamente tudo se transforma em motivos para se referir a Deus. Se um gol aconteceu, foi Deus, se bateu na trave: Deus não quis. Coitado de Deus, vai ver que é por isso que não lhe sobra tempo para cuidar de tantas questões que andam esquecidas aos olhos humanos: talvez os verdadeiros necessitados não saibam rezar e por isso, Deus só consegue ouvir os lamentos que as lentes midiáticas mostram. Vai ver é isso. Não posso acreditar que Deus também tenha sido fisgado pelas notícias focadas aqui e ali e sua visão também tenha sofrido alterações e Ele não possa mais fugir à rede, não possa mais ver o que não se divulga.

Eu não sei, mas durante a caminhada, ouvindo a marcha da oração daqueles jogadores, pensei em minha própria fé. Em que acredito de verdade? E imaginei um Deus cansado e não mais decepcionado, pois não há mais nada a surpreender e a causar novas decepções. Concebi um Deus irônico, rindo de nossa ignorância em pensar que sairemos incólumes a tudo, desde que façamos tudo como se fosse em nome Dele, que Ele constata que somos tão incrivelmente hipócritas que pensamos que o enganamos.

Ai. Virei o pé. Dói, que droga! Bom, dá para continuar caminhando mais devagar, deve ter sido só uma pequena torção, graças a Deus!

27/06/2010





sábado, 26 de junho de 2010

El Gitano

Texto publicado no Jornal Marcapasos de Cursos Internacionales de la Universidad de Salamanca, ES, julio/2005


El Gitano


La Plaza Mayor se quedó pequeña en aquella tarde. Todas las tiendas se cerraron, todas las personas se evaporaron delante de una única mirada: los ojos fijos ya no veían a nadie. ¿Quién podría ser aquél gitano? ¿Qué estaría él haciendo por aquí? No sé nada de él. Acaso pudo haber sido un día el hombre de mi vida y quién sabe, hubiéramos bailado por las calles en las noches en que la luna no vería nosotros. ¿Habríamos tenido hijos o la luna no lo hubiera consentido?
Sus ojos no se despegaban de los míos y todo alrededor ya no importaba, ni las personas que como fantasmas flotaban cuando pasaban por delante de nosotros.
¿Estaría él sintiendo lo mismo que yo? EI deseo de no salir de sus ojos…
Alguien me llama, lejos… me vuelvo para ver quién es y cuando me vuelvo otra vez, no encuentro los ojos profundos que me miraban.
La Plaza Mayor era, ahora, un mar.

Campo

Campo




Rola jabulani


Desgovernada,

Falsa África,

Tão bonita na tela

E fora dela,

Fome, miséria.

Rola jabulani,

Vesga e tonta,

Talvez nem se dê conta,

Nem com toda vuvuzela

De que ela mascara

A dor, o frio.

Vai, desvela!

Atravessa o estádio,

A África do Sul,

E para nas valas

Onde negros amontoados em Luanda

Lutaram pela libertação

Que nunca existiu.

Rola jabulani,

Seu caminho é sonhado

Por tantos negros pobres, suados

Dessa subsaariana

E mutilada

Fábrica de injustiças.

Rola e deixa que eles sonhem

Com um campo sem Aids,

Repleto de água e de comida,

Rola e deixa

Que esse continente fêmea,

Que essa África,

Confundida com um país,

Tão invadida, tão ferida

Sonhe, ao menos, agora,

Com a vida.
26/06/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

JARDIM




Jardim

pensando em Cecília Meireles


Hoje fiz um jardim. Não é um jardim grande, sofisticado, não. É uma floreira quase, pequena, que enchi de terra vermelha e preparada com uma porção de raminhos verdes de que as plantas precisam para crescerem bonitas e viçosas. Tive de socar a terra, com força e com a ponta de uma faca, mas, ainda que parecesse um movimento violento, não tive a intenção. Pensei que tudo que se faz com carinho e com amor fica bonito. Parece piegas, mas é a pura verdade. Não é a mão que tem de ser boa, é o coração, disse-me a Roseli. Por isso, soquei a terra com o coração e plantei as mudas com o coração e amaciei a terra e deixei-a lisinha ao redor das plantas, com o coração. E joguei os cascalhos ao redor das plantas com o coração. E reguei-as depois, com uma água gostosa que também caía nos meus pés, deixando no chão a terra que os cobria, e tudo com o coração.

Fiquei lembrando-me da frase dessa minha amiga, a Roseli. Eu a conheço há tanto tempo e, quando ela e a Valéria vêm a minha casa, deixam-me mais leve. Não somente porque elas me auxiliam nos afazeres, mas porque são alegres, elas fazem as coisas com o coração.

Deve haver muitas roselis e valerias pelas ruas, aquelas pessoas que, apesar da vida doída e dura, fazem as coisas com o coração: auxiliam alguém a encontrar um endereço, sorriem para um desconhecido depressivo (porque o coração nos conduz a descobrir essas pessoas em meio a tantas outras), acariciam um cão perdido e dão pequenas moedas aos mendigos, mesmo sabendo que alguns nem farão bom uso delas. Mas fazem com o coração.

Eu não sei ao certo se, no decorrer de minha vida, tenho feito coisas com o coração, mas acredito que sim, porque mesmo quando eu tenho de parecer cruel e mexer a terra com força, ainda que eu derrube uma ou outra muda fora do canteiro, embora alguns cascalhos façam barulho e caiam das minhas mãos, tenho plantas ao meu redor. Algumas têm espinhos terríveis que, quando nos atingem, machucam e sangramos por alguns dias, até que a pele se renove. Outras são coloridas e viçosas e soam suaves ao menor vento. Umas, são enormes e deselegantes, mas fazem a sombra necessária para as que delas precisam. Outras ainda são pequeninas, mas encantam e perfumam incondicionalmente a grama do jardim.

Hoje eu fiz um pequeno jardim. Não sei se a leveza que sinto é paz ou cansaço, mas estou flutuando, com as penas bambas, soltas, os braços adormecidos: uma folha em voo livre.

Sei que vou dormir mais feliz. Naquele espaço em que havia um vão seco, triste e sem vida, hoje tem um jardim. 23/06/2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Diário de bordo

Texto publicado pela Cenp sobre o Projeto Viagem à Espanha
Salamanca-ES, 16/07/2005

Estou aqui há treze dias e, da janela da Residência Morales, vejo as catedrais de Salamanca - a catedral antiga e a nova - união de tempos. Os sinos badalam. O tempo brinca conosco, viajantes inversos que buscam na Idade Média respostas para sonhos adormecidos. A língua lá fora, forte, ardente, “ronca” seus erres, rudes, risonhos ... Salamanca. Será que estou sonhando? Como poderia imaginar atravessar o oceano, o tempo... E estou aqui há treze dias... As ruas chamam para o conhecer, o caminhar ... casas, igrejas, espaços de outro tempo, para mim, tão novo. “Vengan, vamos!”. Não há como não ir, mas, são 7 da manhã e preciso correr para a excursão: Leon e Zamora. São três horas até Leon, mas chegamos. A catedral é maravilhosa. Os sinos também badalam por aqui e os vitrais coloridos são espelhos vivos de um tempo ... século XIII. Tento conjugar indicativos e subjuntivos castelhanos para conversar no ônibus com norteamericanos, alemães, dinamarqueses, assim, aproveito o tempo também para estudar os tempos ... o temp ... o tem... o t... Pelo vidro do ônibus vejo meu rosto, corado pelo sol ardente e caloroso que a Espanha nos oferece, e penso no brilho que tudo isso está proporcionando em minha vida. Chegamos a Zamora. A catedral não tem os vitrais mágicos da de Leon, mas é uma pérola do século XII. O guia nos lembra do mito de El Cid e viajo para a década de 60 do ano 1000. O tempo ... tão inexorável quando penso que falta pouco para voltar e tão estático quando relembro meus filhos, longe ... neste tempo.
São 20 horas e o sol ainda ilumina o caminho. Penso no brilho intenso dos vitrais da catedral de Leon, no dourado que vejo da minha janela da Morales. Sei que esse brilho reluzirá toda a magnitude dessa Espanha mágica transcendida no tempo e no espaço. Ela segue em minhas veias, vermelha e ardente até que o tempo já não possa mais brincar.
Claudia Maria Cantarella Silva
Diretoria Regional de Ribeirão Preto-SP

“BUSCA”: um conto poético no “feroz realismo” de João Antônio


Capítulo do livro Vale a escrita? Criação e crítica na contemporaneidade, publicado pela UFES, Vitória, 2003, p.p.157-168


“A poesia não se confunde com o verso. (...) Pode haver poesia em prosa e poesia em verso livre. (...) Sabemos inclusive que ela não se contém apenas nos chamados gêneros poéticos, mas pode estar autenticamente presente na prosa de ficção.” (Antonio Candido[i])

No final da década de 70, enquanto João Antônio percorria as “árduas” trilhas, próprias do caminho literário, retratando os viradores e malandros da vida noturna e, já era considerado por Antônio Cândido como uma dos maiores representantes do chamado “realismo feroz” [ii], eu era uma adolescente que imaginava, na noite e nos rostos magros que a habitam, um delirante fascínio. Porém, vivendo uma realidade totalmente adversa ao mundo marginal, as madrugadas correspondiam apenas ao meu universo de aspirações. Por isso, falar de João Antônio é, particularmente, uma tarefa muito especial. Quando as madrugadas me chamavam e eu não podia atender ao seu convite, descobri Malagueta, Perus e Bacanaço na pequena, mas significativa biblioteca que meu irmão mais velho degustava. Peguei-o sem compromisso e o mergulho nas madrugadas malandras preencheu minhas aspirações tão ansiosas. Afoguei-me naquele mundo desconhecido e narrado de maneira tão singular que me intrigava. Não imaginava que textos tão incisivos pudessem ter tanto lirismo. A vida seguiu seu curso e, um dia, ao trabalhar a literatura em uma aula, apresentei João Antônio aos alunos de um terceiro ano do Ensino Médio e revivi,mesmo após alguns anos, a sedução de seus textos. As bolas de sinuca rolavam no pano verde...As madrugadas insistiam no convite para a aventura, para a reflexão, para a poesia...
Sem dúvida, a poesia navega nas veias marginais dos contos de João Antônio e neles marca, indubitavelmente, sua presença. Não podemos deixar de considerar relevante o fato de estarmos falando de contos. Nádia Battela Gotlib[iii] lembra-nos do estudo de Edgar Alan Poe sobre a unidade de efeito. No estudo de Poe, verifica-se que o escritor aplica ao conto as mesmas propostas de leitura e de teoria aplicadas ao poema. O conto, por ser uma história cuja leitura se realiza “de uma só sentada”, aproxima-se do poema que “induz a uma exaltação da alma que não pode ser sustentada por muito tempo”.
Diferentemente do romance, no conto “o autor é capaz de realizar a plenitude de sua intenção, seja ela qual for. Durante a hora da leitura atenta, a alma do leitor está sob o controle do escritor”[iv].
Privilegiando a unidade de efeito, o conto se aproxima mais da poesia do que da prosa, pois a eficácia e o sentido do conto “dependem destes valores que dão um caráter específico ao poema e também ao jazz: a tensão, o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto dentro dos parâmetros pré-vistos, essa liberdade fatal que não admite alteração sem uma perda irreparável”.[v]
Paul Valéry[vi] nos ilumina ao dizer que a narrativa é como uma marcha e a poesia, “arte da linguagem”, é como uma dança. E dançar é repetir passos, pois cada repetição traz aos passos nova leveza ou novo “ataque”. A escrita de João Antônio é marcada por movimentos que se repetem à semelhança da dança. A recorrência de temas, de estruturas, de palavras, de figuras em sua escrita caracterizam a poética de sua narrativa. Assim, a poesia não é avessa ao “realismo feroz” e João Antônio a introduz e a eterniza em muitos dos seus contos, como por exemplo, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, “Frio”, “Paulinho Perna Torta”, entre outros, em que a rua compõe o espaço percorrido pelo narrador poético.
Para melhor mostrarmos o modo poético e singular de narrar do autor, lançamos mão de algumas observações de Jean-Yves Tadié[vii] sobre a narrativa poética e escolhemos, para análise, o texto “Busca”, o primeiro da premiada coletânea Malagueta, Perus e Bacanaço, um conto ímpar em que a poesia salta aos olhos. Embora não narre a vida dos tão conhecidos viradores e malandros noturnos, “Busca” tem Vicente como personagem-narrador, um homem que, apesar de não avesso ao dia e vivenciar as madrugadas, também sente-se avesso, desencontrado no mundo em que vive. Trabalha como soldador, vive com a mãe, aparentemente uma dona de casa e, num início de tarde de domingo, sai para caminhar, sem rumo, em busca de algo que nem mesmo ele sabe definir. Durante a caminhada, ele relembra fatos de sua infância, começa a pensar em seus primeiros fios de cabelos brancos e percebe que os sonhos por ele almejados, movidos pelo destino, escaparam-lhe. Sendo Vicente personagem-narrador, o conto apresenta uma “visão com”: “É ‘com’ ela [personagem] que vemos as outras, é ‘com’ ela que vivemos os acontecimentos contados. Sem dúvida que não deixamos de ver o que se passa nela, mas somente na medida em que o que se passa em alguém aparece a esse alguém”.[viii]
A focalização escolhida pelo autor nos permite “caminhar” com a personagem, não só pelas ruas, como também em meio a suas lembranças. Enquanto Vicente caminha, as lembranças do passado vão surgindo por meio de retrospecções. À medida que isso ocorre, o personagem-narrador vai nos explicando sua história. Assim, a ordem do discurso não coincide com a dos acontecimentos ocorridos na diegese, caracterizando “Busca” como um conto de atmosfera - terminologia utilizada por vários teóricos sobre o conto, inclusive por Nádia B.Gotlib[ix] para caracterizar o conto cuja ordem do discurso é privilegiada pelo ir-e-vir do monólogo interior de uma ou demais personagens.
Apesar de não ser longo, o conto é separado por asteriscos e dividido em três partes. A primeira parte - início do discurso - é também o início da história. Nessa parte, o narrador-personagem informa que não vive com nenhuma mulher a não ser com a mãe - aparentemente, uma dona de casa. Sabe-se, também, que uma jovem chamada Lídia, amiga de sua mãe, interessa-se por ele. “Por que diabo essa menina cismou comigo?”[x].
Ainda na primeira parte, Vicente, em seu caminho, atravessa uma ponte,momento em que ocorre uma retrospecção que vai revelar, por meio do monólogo interior, quando e por que Vicente adquiriu sua “mania” de andar. A ponte é um símbolo que representa a passagem do tempo presente para o passado do protagonista:

Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem. (...) Desde que papai morreu, esta mania. Andar. Quando venho do serviço, num domingo, féria, a vontade aparece. O velho, quando vivo, fazia passeios a Santos, uma porção de coisas. Bom. A gente se divertia, a semana começava menos pesada, menos comprida, não sei. Às vezes, penso que poderia recomeçar os passeios.[xi]

A ausência do pai torna a vida de Vicente opaca, sem perspectivas, levando-o a assumir o papel paterno em resposta à impossibilidade de alcançar seu próprio lugar no mundo. É no subir e descer das ruas que relembra as alegrias vividas na presença do pai, buscando-as dentro de um espaço perdido em si mesmo.
Segundo Tadié[xii], o narrador poético é atraído por lugares afastados, escuros, fechados, distantes dos abjetos aspectos do mundo por ele julgado. O narrador-personagem de “Busca” opta pelas ruas distantes das de sua casa. Ele procura, nas veias da cidade, um sentido para sua vida. Portanto, as ruas compõem o espaço poético que interrompe o tempo exterior para que Vicente busque a si mesmo no tempo interior. Parafraseando Tadié, na narrativa poética há uma busca para escapar ao tempo, voltando às origens da própria vida, ou da história, ou do mundo.
Em outra retrospecção, também na primeira parte, o narrador-personagem conta que, desde menino, exerce a mesma ocupação: trabalhar com solda: “Lá na oficina me fazem uma adulação nojenta, porque sou da coisa. chefe da solda. Ora, desde menino nesta ocupação, é claro que entendo da coisa. Por isso certos fulanos se encostam, agrados para pedir isto e aquilo. Mas Luís é ótimo, não adula. Só abre a boca para coisa aproveitável”.[xiii]
A personagem justifica o cargo de chefia contando-nos que trabalhou como soldador desde criança e notamos que o fato de Vicente ser chefe parece incomodá-lo, pois acredita que as pessoas o adulam não por gostar realmente dele, mas por interesse ou medo de serem repreendidos.
Considerando-se que a solda une peças metálicas e que o metal é algo rígido, difícil de ser transformado, podemos entender que Vicente tenta “soldar” também a rigidez de seu passado - a perda do pai, o fato de não poder mais lutar boxe - ao seu rígido presente - a busca de si mesmo. Vicente “solda” também seu tempo interior à sua caminhada pelas ruas, sem destino definido.
O ir-e-vir dos pensamentos do protagonista é traduzido pelo monólogo interior, unindo o tempo exterior ao tempo interior, como podemos observar na transcrição da passagem do conto:

Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xiv]

A união dos dois tempos intensifica o duelo que a personagem trava consigo mesma por não conseguir atender às expectativas atribuídas às pessoas de seu convívio.
No final da primeira parte, Vicente, em uma rua desconhecida, depara-se com um garoto também desconhecido, passagem em que o narrador é bastante feliz em suas metáforas e em seu lirismo:

O meu sapato novo estava começando a se empoeirar.
Entrei por uma rua que não conhecia. Olhava para tudo. Jardins, flores, mangueiras esquecidas na grama, gente de pijama estendida nas espreguiçadeiras. A bola de borracha subia e descia no muro. Um menino veio. O que eu adoro nesses meninos são os cabelos despenteados. Chutei-lhe a bola, que ela corria para mim. Transpirava, botou a mão no ar agradecendo.
- Legal.
Ele disparou, vermelho de sol.[xv]


A personificação do sapato novo que “estava começando a se empoeirar” é a metáfora do caminho - da vida do narrador-personagem - que já não se sente tão jovem. Esta passagem antecipa o que, mais adiante, ele nos revela ao falar de seus primeiros cabelos brancos que “acima da costeleta, apontam incisivos, provavelmente não demorarão a pintar tudo de branco.”[xvi]
Às palavras vermelho e sol, “associa-se tudo o que é belo, nobre, generoso elevado”[xvii]. A rua e o garoto desconhecidos levam a personagem a se lembrar do Vicente-menino, feliz e cheio de energia, desfrutando a beleza e a liberdade de um garoto; um Vicente de quem ele gostava e que via a rua como um espaço para buscar diversão e aventura; um Vicente que ele já não reconhece e que, como o garoto desconhecido, busca, na rua, algo para preencher seu vazio; ele procura uma “bola com que possa jogar”, uma aventura, acessível em seu momento presente, somente em pensamentos. O menino “vermelho de sol” é o espelho de seu passado e faz com que nosso protagonista se lembre de seu sonho elevado e interrompido por um episódio em sua juventude, relatado logo no início da segunda parte do conto, por meio de outra retrospecção:

- Desta vez ele vai!
Girei para a esquerda, soltei o direito. Caprichava, tanta certeza eu tinha. Aquele mulato não agüentaria mais um “round”.
Um sujeito lá embaixo:
- Desta vez ele vai!
O mulato defendeu, deu uma gingada, ganhou a brecha. Largou o braço. Que técnica! Quem é que poderia esperar aquilo?
Golpe, dor, choque, sangue, escuridão, zoeira, lona. Cara na lona. Eu jamais esqueceria! [xviii]


Novamente, é caminhando que Vicente relembra sua última luta de boxe, da qual sai como perdedor, levando seu sonho de lutador “à lona”. Ele apresenta um problema no fígado, sente-se desanimado mas, incentivado por Freitas, seu treinador, submete-se a uma cirurgia na esperança de poder continuar lutando.
Embora o médico cure a doença de Vicente, nosso boxeador fica impossibilitado de voltar aos campos de luta. Seu grande sonho lhe é amputado e ele perde aquilo que o fazia sonhar e ser alguém cheio de entusiasmo pela vida, cheio de desejo de buscar...
Na terceira parte, o presente da enunciação é retomado e a personagem chega à casa de Luís, o empregado da oficina, cujo comportamento Vicente admirava:

Luís ficou muito contente. Jamais pensei que ele tivesse casa tão bem disposta. Capricho nas paredes, tinhorões no jardim. Em seu quarto, mostrou-me livros, entusiasmou-se com uns desenhos sobre a prancheta. Disse-lhe sem sentir, olhando linhas em nanquim preto:
- Você deve continuar. Desenho arquitetônico dá dinheiro, rapaz - lembrei-me de Freitas naquela hora.
Chateza na tarde. Ia para os lados do Piqueri. Havia bebericado conhaque num boteco, jogado uma partida de bilhar com Luís. Fingira atenção nas tacadas, um capricho que não é meu. Sorrira, pegara no giz, insinuara apostas. Mas por dentro estava era triste, oco, ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem Lídia, nem. (...)
Andando tão devagar. Procurava alguma coisa na tarde. O vento esfriou. Não sabia bem o que, era um vazio tremendo. Mas estava procurando.[xix]


Vicente incentiva Luís a continuar com os desenhos, assim como Freitas, mecanicamente, incentivou-o a continuar lutando, estabelecendo-se assim, um jogo entre o sonho e a possibilidade do real. Ao chegar à casa de Luís, Vicente reconhece na “casa tão bem disposta, capricho nas paredes, tinhorões no jardim”, a segurança que procura. A casa significa o ser interior, ela “abriga o devaneio e protege o sonhador”. O jardim simboliza a cultura, a espontaneidade e o equilíbrio. Luís é equilibrado, espontâneo e sonhador. Ele é o espelho do homem que Vicente queria ser e não é. Luís tem seus sonhos “abrigados”, como um menino e deseja concretizá-los. Vicente não consegue ficar em casa, pois seus sonhos foram “nocauteados” no passado. Seu nome, ironicamente, simboliza “aquele que vence” e ele está em busca de algo que se perdeu no tempo: “ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem lídia, nem.” O objeto da verdadeira procura de Vicente não é algo visível, que está ao seu alcance. O que ele busca está perdido na tarde, metáfora do seu tempo interior, ao qual ele chega enquanto caminha. A tarde simboliza o tempo que separa a manhã - o passado, relembrado em seu monólogo -, e a noite - seu futuro, do qual sua única certeza é a presença incisiva dos cabelos brancos.
Sentado num banco de praça, o narrador-protagonista inicia uma descrição de suas lembranças, interrompidas com a chegada de uma garotinha:

Tempo-será das crianças no jardim público. Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças - tempo de quartel, maluqueiras, farras, porres. Boxe, boxe! Uma frase qualquer me veio na tarde. Ouvida na oficina, na casa de Luís, não a localizava precisa, nem onde. Só sabia que falava nos primeiros cabelos brancos que tenho.
Acima da costeleta, apontam incisivos; provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco. Uma criança passou-me, deu-me um tapinha no joelho. Achei graça naquilo, sorri, tive vontade de brincar com ela. Ficamos nos namorando com os olhos. Ela se chegou, conversamos. Perguntei essas coisas que se perguntam às crianças. Em que ano do grupo está, quantos anos tem, gosta daquilo, disto... O sorveteiro com o carrinho amarelo. Paguei-lhe um sorvete de palito, e ficamos eu e a menina até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça. (...)
Agora o sol descendo por completo. Uma lua em potencial, lá em cima, ganhava tons, parecia uma bola de ocre. Enorme, linda. Meus olhos divisavam no fundo de tudo o Jaraguá, mancha grande meio preta, meio azul... Meus olhos não precisavam. Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.
Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque.[xx]


Percebe-se, novamente, que Vicente fala do passado, mas situa-se no presente e vê no futuro apenas o fato de envelhecer. A oposição presente x passado, leva-nos a concluir que a personagem tem saudades do passado, de sua infância que provavelmente deixou um gosto de alegria, de amparo. No passado havia o “sol”, o brilho da juventude, o sonho a ser realizado. No presente, adulto e avistando seus primeiros cabelos brancos, o narrador sente “um tremendo vazio”. Seu olhar para o futuro também não é de otimismo - “os cabelos brancos apontam incisivos, provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco”. Vicente vê seu sonho se perder tanto nos “aventais muito brancos da empregada a surgirem na praça” que levam a menina com quem conversava e o fazia reviver um passado interior, como nos “incisivos” fios brancos que lhe apontam nos cabelos e que levam sua juventude física, exterior. O fato de envelhecer perturba-o, como observamos também em outro monólogo interior: “Preciso cortar à escovinha. Assim escondo os começos de cabelo branco...”. Quanto mais brancos se tornarem os cabelos de Vicente, menos “vermelho de sol” ele estará e o seu sonho tornar-se-á cada vez mais nublado, mais opaco, mais distante.
Notamos na narrativa uma construção poética alicerçada pelo jogo de cores pintado pelo narrador. O vermelho, a vida da juventude, mescla-se ao branco da lua, dando a ela um tom ocre no “meio preto, meio azul” do céu. A lua branca recebe tons e se renova, contrapondo-se aos cabelos brancos de Vicente que somente “cortados à escovinha”, bem curtos, talvez possam ser ocultados, e não podem ser renovados. O protagonista tenta "soldar" o seu tempo de alegria - quando ele queria e podia realizar o que quisesse (juventude, desejo de lutar, sonhos) ao tempo de sua insconsciente busca, ao tempo do “tremendo vazio” (o de não poder lutar boxe, o da ausência do pai, o vazio do “sapato que começava a se empoeirar”).
Os cabelos brancos levam Vicente a refletir sobre o seu presente e a reconhecer a harmonia do passado. O narrador-personagem leva-nos a partilhar dos seus sentimentos nostálgicos, principalmente nas passagens em que ele se depara com crianças - ele chuta a bola para o garoto; acha graça, sorri e conversa com a menina “até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça”. Cabelos e aventais brancos personificados trazem Vicente para o presente que o angustia.
Além das metáforas e dos símbolos, observamos nos tempos verbais destacados no trecho a seguir, que o narrador-protagonista estabelece um ritmado jogo temporal - outra característica de narrativa poética - quando fala do passado, mas situa-se no presente e antecipa o futuro. O jogo ocorre com a alternância dos verbos - gerúndio, pretérito e presente - conforme se intercalam as técnicas do fluxo da consciência - monólogo interior inserido na narração da personagem:

Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xxi]

O narrador-personagem está sempre presente e interrompe a narrativa atribuindo a ela um ritmo fragmentado, uma descontinuidade, utilizando-se do ir-e-vir entre narração e fluxo da consciência, fazendo com que a linguagem acompanhe o pensamento do protagonista.
O primeiro parágrafo do conto traz a voz da mãe: “- Vicente, olha a galinha na rua! Abri o portão, a galinha pra dentro”. A mãe pede a Vicente que pegue a galinha que fugiu e tenta retardar a saída do filho, argumentando que o sol está alto: “ Espera o sol descer um pouco”. Na verdade, a mãe quer que ele fique porque Lídia, que se interessa por ele, chegará a casa e a mãe deseja vê-los juntos. Mas Vicente quer sair, precisa fugir como a ave e “conduzir sua alma”, caminhando - hábito adquirido desde que o pai falecera. Ao caminhar, ele observa seus sapatos: “Meu sapato novo estava começando a se empoeirar”.
Enquanto caminha, seus passos conduzem-no ao passado: “Na rua de pedregulho mal socado o sapato novo subia, descia”. Percebe-se que a personagem chega a lugares externos e internos involuntariamente.
De acordo com Tadié[xxii], a rua corresponde à rota, ao itinerário. É um espaço natural que orienta uma possível descoberta. A caminhada do protagonista é exterior e interior - rua/vida; sapato/ele, busca. Quando o sol se põe e a lua surge “em potencial, lá em cima (...). Enorme, linda”, Vicente está voltando para casa, uma volta que ele prevê repetitiva, “morna”: “Chegaria em casa, beijo na testa da mamãe, cumprimentos para Lídia. Ela repetiria o jogo - indiretas, risinho, interesse, por que não faço isso, por que não gosto de... Mas o vazio não passaria. Comer alguma coisa, botar o paletó. Andar de novo”.
Novamente, nosso narrador deixa transparecer sua incredulidade em relação à mudança de perspectiva em sua vida. No presente, já adulto, sente-se fracassado e conta para si e para o leitor também os insucessos de seu próprio passado.
Conforme nos ilumina Tadié[xxiii] um narrador que é personagem desdobra-se entre um eu-protagonista e um eu-narrador. Desdobrado em narrador (no presente) e protagonista (no passado), Vicente observa sua vida e busca uma resposta que possa amenizar sua angústia. Essa procura ocorre também durante o percurso da volta a casa, quando repensa o trabalho, os sujeitos aduladores, em recomeçar com a mãe os passeios a Santos, a Campinas... Pensa que a garotinha do parque poderia ser sua filha, que Lídia era uma boa moça... Observa “o sol descendo por completo” e uma lua “enorme, linda”. A lua, entre tantas significações, “é para o homem o símbolo da passagem da vida à morte e da morte à vida”:

a lua fala, no interior da constelação de nascimento do indivíduo. (...) A zona lunar da personalidade é esta zona noturna, inconsciente, crepuscular de nossos tropismos, de nossos impulsos instintivos. É a parte (...) que modela nossa sensibilidade profunda. É a sensibilidade do ser íntimo entregue ao encantamento silencioso de seu jardim secreto impalpável canção da alma, refugiado no paraíso de sua infância, voltado sobre si mesmo, encolhido num sono da vida - senão entregue à embriaguez de um arrepio vital que arrebata sua alma caprichosa, vagabunda, boêmia, fantasiosa, quimérica, ao sabor da aventura... [xxiv]

Ao chegar a noite e ao avistar a lua, Vicente mergulha na quimera de poder transformar sua vida: “Talvez as semanas começassem melhores, menos compridas. (...) Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque”. A personagem se lembra de que precisa retirar o limo das paredes do tanque, passagem que ocorre logo no início da diegese: “Derramei, fiquei olhando a água no cimento. Aquilo estava era precisando duma escova forte. Começo de limo nas paredes. Sujeira. Quando voltasse, daria um jeito no tanque. As manchas verdes sumiriam”.[xxv]
O limo[xxvi] simboliza “o início da degradação”, a marca de que o tempo passou impiedosamente, e, limpá-lo, significa renovar-se, buscar novos rumos, novos sonhos... Vicente percebe a necessidade de mudar, mas não tem certeza de que possa realizar seu intento. Ele, narrador, sugere que uma mudança, talvez, possa ocorrer. “Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.”
Somos, assim, convidados à dúvida. A tarde é o tempo da caminhada de nosso protagonista, é o espaço de sua busca.
O itinerário da narrativa poética é, segundo Tadié[xxvii], marcado pelos espaços entre a viagem exterior e a interior da personagem: a sua busca. É justamente esse espaço que o narrador escolhe para criar e imprimir o tom de sua poesia. Vicente procura a lua “enorme e linda” que, “embora privada de luz própria e não passar de um reflexo do sol”, dá-nos a impressão de que faz reluzir nele a possibilidade de preencher seu vazio, de procurar, de buscar “cor” para o seu momento presente e para o seu futuro, a sua noite que “apresenta um duplo aspecto, o das trevas em que fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia, de onde brotará a luz da vida.”[xxviii]

Referâncias Bibliográficas

[i] CANDIDO, A . O estudo analítico do poema. São Paulo: FFLCH-USP, 1967, p.13
[ii] Id.. A nova narrativa. A educação pela noite. São Paulo: Ática, 1987, p. 210-211
[iii] GOTLIB. N.B. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2001, p. 33
[iv] Ibid, p.34
[v] VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991, p.235
[vi] Ibid, p.205-212
[vii] TADIÉ, J. Y. Le récit poétique. Paris: PUF, 1978
[viii] POUILLON, J. O tempo no romance. São Paulo: Cultrix, 1974, p.54
9 GOTLIB, op. cit. p. 17, 2
10ANTÔNIO, J. Busca. Malagueta, Perus e Bacanaço. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p.12
11 Ibid, p.12
12TADIÉ, op. cit. p.83-85, 6
13 ANTÔNIO, op. cit. p.12-13, 9
14 Ibid, p.12
15 Ibid, p.12-13
16 Ibid, p.12
17 CHEVALIER E GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1982, p. 800
18 ANTÔNIO, op. cit. p.14-15, 9
19 Ibid, p.15
20Ibid, p. 15-16
21Ibid, p.12
22TADIÉ, op. cit. p. 63, 6
23Ibid, p.19-20
24CHEVALIER, op. cit. p.564-565, 16
25ANTÔNIO. op. Cit p.11, 9
26CHEVALIER, op. cit. p.534, 16
27TADIÉ, op. cit. p.67, 6
28CHEVALIER, op. cit. p.640, 16

terça-feira, 22 de junho de 2010

João Antônio: O Narrador da ociosidade


Capítulo do livro Análise Literária: Tendências contemporâneas, publicado pela EDUFU, Uberlândia, 2003, p.p.33-37


Frio
O frio percorreu as veias da noite
E o destino, cruel açoite
Degelou brutalmente
O sangue, numa chibatada (da autora)



Falar de João Antônio é, particularmente, uma tarefa muito especial. Conheci Malagueta, Perus e Bacanaço na adolescência. Ele estava lá, na pequena, mas significativa biblioteca que meu irmão mais velho degustava. Iniciei a leitura sem nenhum compromisso e o mergulho nas madrugadas malandras me fascinou. Afoguei-me deliciosamente naquele mundo tão desconhecido para mim. A vida seguiu seu curso e, um dia, apresentei João Antônio aos meus alunos de um terceiro ano do Ensino Médio e vi que, mesmo após bons anos, a sedução de seus textos era latente; as bolas de sinuca rolavam no pano verde, as madrugadas convidavam para a aventura, para a reflexão, para a poesia...
Seguidor apaixonado de Lima Barreto a quem chamava de “pioneiro devastador rasgadamente brasileiro”(Steen, Edla Van. In: Viver & escrever, p.138), “escritor que inaugurou no papel o subúrbio carioca”(O Romancista com alma de bandido tímido, In: Dama do Encantado, p.89), João Antônio leva para seus contos as marcas de seu tempo, mas vai além, navega nas veias da malandragem, recolhe os cacos das madrugadas, os retalhos, o gosto, o odor... e mesmo tomando como referência a feroz vida bandida, seus textos transbordam de lirismo:

Perus acompanhava os dois, mas olhava o céu como um menino num quieto demorado e com aquela coisa esquisita arranhando o peito. E que o menino Perus não dizia a ninguém. Contava muitas coisas a outros vagabundos. Até a intimidade de outras coisas suas. Mas aquela não contava. Aquele sentir, àquela hora , dia querendo nascer, era de um esquisito que arrepiava. E que julgava pela força estranha, que aquele sentimento não era coisa máscula, de homem.
Perus olhava. Agora a lua, só meia- lua e muito branca, bem no meio do céu. Marchava para o seu fim. Mas à direita, aparecia um toque sangüíneo. Era um rosado impreciso, embaçado, inquieto, que entre duas cores se enlaçava e dolorosamente se mexia, se misturava entre o cinza e o branco do céu, buscava um tom definido, revolvia aqueles lados, pesadamente. Parecia um movimento doloroso, coisa querendo arrebentar, livre, forte, gritando de cor naquele céu. (“Malagueta, Perus e Bacanaço”, p. 150)



Seria o rosado do céu, entre o cinza e o branco, uma metáfora de Perus e de seus companheiros “conluiados”? Não estaria Perus desejando rebentar como a manhã?
Outro, entre tantos exemplos do lirismo joãoantoniano pode ser destacado também no conto “Frio”:
Pequeno, feio, preto, magrelo. Mas Paraná havia- lhe mostrado todas as virações de um moleque. Por isso ele o adorava. Pena que não saísse da sinuca e da casa daquela Nora, lá na Barra Funda. Tirante o que, Paraná era branco, ensinara- lhe engraxar, tomar conta de carro, se virar vendendo canudo e coisas dentro da cesta de taquara. E até ver horas O que ele não entendia eram aqueles relógios que ficam nas estações e nas igrejas- têm números diferentes, atrapalhados. Como os outros, homens e mulheres, podem ver as horas naquelas porcarias? (“Frio”, p. 61-62)


“Frio”, um dos nove contos de Malagueta, Perus e Bacanaço foi o texto que mais “incomodou” minha leitura adolescente. Se W. Kayser (1968, p.272) em sua definição de conto diz que “o que lhe dá unidade é, primeiramente, como diz o nome, o seu caráter de ser contado ou poder ser contado” e Horacio Quiroga (1970) associa os contos à narrativa oral e completa: “o homem contará sempre, por ser o conto a forma natural e insubstituível de contar”, por que Frio não me pareceu fácil de ser contado? Por que Nego, pelo caminho, deparou-se com um cão morto na sarjeta? Por que um conto que nem é longo está separado por asteriscos? Por que havia aquele muro? Por que Nego urinou no muro? O texto, apesar de não ser longo, sem dúvida, quebra os elementos espaciais e temporais tradicionais de um romance ou de um conto. Ele rebenta a tranqüilidade do leitor e o carrega não só para a gélida madrugada, mas para a reflexão sobre a sociedade fragmentada, sobre o também homem fragmentado, solitário. Solitários e fragmentados são os pensamentos, os monólogos da personagem Nego. Ele é um garoto perdido, tal como o foi seu “mestre” Paraná. Em “Frio”, a narrativa sugere níveis de significados por meio de imagens e símbolos. Frios são os espaços externo e interno (a noite é fria, sem lua- o garoto é negro e está só). O que aquece Nego são os seus pensamentos- o alimento, o leite quente que o ampara. A descrição onisciente e o monólogo interior são utilizados para representar não apenas a diegese, mas o aspecto da dualidade da vida humana. Espaço e tempo se misturam à personagem sem nome. Paraná também não tem nome. Defende o garoto e o coloca em perigo. Dá-lhe calor e frio. Branco e preto vivem à margem, conluiados na veia marginal. A malandragem é herança que passa de “pai para filho”. Aprendiz obedece ao mestre e ambos obedecem às regras de um mundo às avessas. Ambos, anônimos, alimentam-se da solidão. Toda sinestesia presente na narrativa, todas as sensações físicas (frio, fome, desejo de urinar) relacionam-se ao medo, à solidão, ao desamparo de Nego: sua condição dentro da sociedade e da vida. Nego pula e repula o muro “alto e difícil” na visão de Paraná, depois livra-se do incômodo desejo de urinar que o perturbou durante todo o percurso. O ato de urinar, embora caracterize o grotesco, tem um lirismo subentendido: a ironia da superação das dificuldades, o fato de livrar-se do que (ou de quem) lhe tira o sono. O narrador, em “Frio”, joga com as palavras, com a composição do conto, retrata a malandragem sem se desviar do lirismo, viaja pela madrugada sem lua não só acompanhando o herói (ou anti- herói), mas também no interior do herói e luminosamente reflete ao leitor as sensações pelo herói experimentadas. Ele sabe mais que o herói, no entanto, o mais ele não conta, sugere por meio de imagens e, mesmo narrando sem da história ser personagem, o narrador se compadece do menino e do homem. É um narrador poético (Benjamin, p. 201), “o narrador retira da experiência o que ele conta, sua própria experiência ou a relatada pelos outros [,] incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes [,] o romancista segrega-a. A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los”; (p.118) “os homens aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna” e (p.213) “o leitor de um romance é solitário”, busca nos romances o sentido para sua vida sem sabedoria.
João Antônio assemelha-se ao narrador de romances por expor ao leitor a visão do mundo fragmentado, opaco, divisado, individualista e sem sabedoria. Em Frio, o narrador leva o leitor a perceber que tanto Paraná como Nego são açoitados pelo destino: Paraná como um cão morto na sarjeta e Nego com um muro a ser pulado pela manhã, uma manhã que não se adivinha se será gélida como a noite sem lua ou se terá sol para aquecer o menino solitário. Por outro lado, ainda segundo Benjamin, (p.214) “o grande narrador tem sempre suas raízes no povo”, Paraná e Nego são ociosos das ruas.
O velho Malagueta, o picante Bacanaço e o jovem Perus andam pela madrugada paulistana jogando sinuca, ouvindo e contando suas próprias histórias e as de outros velhos jogadores e viradores, divagam, apesar de unidos, solitários do resto do mundo:

Mas era noite de sábado e houve lados por onde passaram, apequenados e tristes. Vaivém gostoso dos chinelos bons de pessoas sentadas balançando-se nas calçadas, descansando (...)aquela gente bem dormida, bem vestida e tranqüila dos lados bons das residências da Água Branca e dos começos das Perdizes.
Aqueles viviam. Malagueta, Perus e Bacanaço, ali desconcertados. Não pertenciam àquela gente banhada e distraída, ali se embaçavam (...) Se gramassem atrás do dinheiro (...) se evoluíssem malandragens (...) teriam o de comer e o de vestir no dia seguinte (...).
Aqueles tinham a vida ganha. E seus meninos não precisariam engraxar sapatos nas praçase nas esquinas, lavar carros, vender flores (...)
Um sentimento comum unia os três, os empurrava. Não eram dali. Tocassem. (´Malagueta, Perus e Bacanaço”, p.127)




“Malagueta” (chamemos assim o conto) e “Frio” terminam com o amanhecer. Morre a noite e o nascer do novo dia trará outra noite, outros jogos, outros dias... Os dois contos quebram a distância estética com o leitor, falam a linguagem da malandragem, carregam o leitor para as veias da madrugada bandida e, pelo fato de estarem assim tão “conluiados” às raízes dessa identidade marginal, o narrador de ambos assemelha-se ao sábio narrador da tradição oral que deixa sua marca “como a mão do oleiro na argila do vaso”. É verdade que diante da modernidade capitalista não há relações de trabalho artesanal a serem contadas, nem a vida brilhante de heróis que fazem a história. Mas há o jogo que parodia o jogo da própria vida, há a disputa, a falta de identidade dos artistas da malandragem, dos anti-heróis da modernidade que estão desprovidos até do próprio nome. Por esse motivo, é possível encontrarmos em João Antônio o narrador experiente que, mesmo convertendo em contos os cacos, os fragmentos, os retalhos das noites, mesmo se deparando com um leitor solitário em busca de um sentido para sua vida, convida esse leitor para o jogo da leitura narrando poeticamente a vida dos artesãos da ociosidade.
 Olá, meu parceirinho! Está a jogo ou a passeio? (...)
 Vamos brincar? (Malagueta, Perus e Bacanaço, p. 101)




Bibliografia

ADORNO, T. “A posição do narrador no romance contemporâneo”. In:Os Pensadores. São
Paulo: 1980
ANTÔNIO, João. Malagueta, Perus e Bacanaço. RJ: Civilização Brasileira. 3a edição.1975
ANTÔNIO, João. O romancista com alma de bandido tímido. In: Dama do Encantado. No-
va Alexandria. São Paulo: 1996
BAKHTIN, Mikhail. O autor e o herói. In: Estética da Criação Verbal. SP: Martins Fontes
1983
BENJAMIN, W. A crise no romance. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. SP.
Rouanet . São Paulo: Brasiliense. 1985 (Obras Escolhidas , I )
BENJAMIN, W. Experiência e pobreza. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. SP.
Rouanet. São Paulo: Brasiliense. 1985 ( Obras Escolhidas , I )
BENJAMIN, W. O autor como produtor. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. SP.
Rouanet. São Paulo: Brasiliense. 1985 ( Obras Escolhidas , I )
BENJAMIN, W. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política. Trad. SP. Rouanet.
São Paulo: Brasiliense. 1985 ( Obras Escolhidas , I )
CANDIDO, A .A Nova Narrativa. In: A educação pela noite. São Paulo: Ática.1987
CORTÁZAR, J. “Alguns aspectos do conto”. In: Valise de Cronópio. SP: Perspectiva.1974
HUMPHREY, Robert. O fluxo da Consciência. Mc Graw-Hill do Brasil Ltda, SP: 1976
KAYSER, Wolfgang. O Conto. In: Análise e interpretação da obra literária. Coimbra:
Armênio Amado Editor. Vol. II. 1968
LUKÁCS, Georg. Realismo crítico hoje. Brasília: Ed. Coordenada, 1969
QUIROGA, Horacio. “La retórica del cuento”. In: Sobre literatura; obras inéditas y descono-
cidas. Montevidéu: Arca, 1970.V.7
PRADO, Antonio Arnoni. Lima Barreto Personagem de João Antônio. In: Remate de Ma –
les. Departamento de Teoria Literária IEL/ UNICAMP, n. 19. Campinas: 1999
STEEN, Edla Van. Viver & escrever. Porto Alegre: L&PM, 1981
























Trilogia social




Trilogia social

I- Menino de rua
_Moço, deix’eu limpar o vidro?
_Tem uma moeda, não?
Senta na sarjeta,
Brinca com a formiga no chão.
Rude chão.
Frio chão.
Menino cigano,
Conhece lado a lado da cidade,
E os homens da Única.
Figura miúda
No meio da rua
E olha a lua:
_Não sei quem falou
Que vai nascer verruga na ponta do dedão!
Craque no drible, samba, assim, diante do Pinguim.
Menino ligeiro,
Cheira cola de sapateiro
E sonha com os dias que virão.

II- Precoce sobre(a)ssalto
O frio percorre as veias da noite
E um cruel açoite,
Degela brutalmente
O sangue, numa chibatada.
Dor nos olhos, nas mãos
Sem pai, sem mãe...dor, dor, dor.
Precisa da droga no suor.
A mão sôfrega pega a arma,
Tropeça, corre às ruas,
Um tiro escapa,
Um.
Outro jovem no chão,
Rude chão,
Frio chão,
O pai sem escoras,
À mãe, nada consola.
Menino ligeiro,
Foge driblando letreiros,
E chora pelos dias que virão.

III- Partido alto

Corrida tensa, bamba,
Pés que torcem, retorcem a barriga vazia.
E os sons das sirenes anunciam:
Correr, correr,
Pra onde, pra quê?
Não há mais nada: nem passo, nem drible, nem cadência:
O samba se perdeu.
Outra bala,
Nem escapa, nem pensa:
Menino ligeiro,
O sangue escorre inteiro,
Já não sonha, nem chora,
Não há dias que virão.

FOTOGRAFIA


Fotografia

Todos os dias (ou quase), ele passava pedindo alguma coisa. A voz confundia, pelo interfone não denunciava se era homem ou mulher. E naquela manhã, ouvi a campainha soar. Ele pediu algo para comer, qualquer coisa, pão velho, o que tivesse. Eu não sabia dessa rotina e, quando ouvi minha ajudante dizendo “não” ao interfone, perguntei de que se tratava. “Ah, é um travesti que vive pedindo coisa”. Indaguei o que pedia ele e fiquei surpresa com a resposta: “qualquer coisa, pão velho, alguma coisa para comer”. Disse a ela que não deixasse de entregar-lhe algo quando pedisse, que lhe desse alguma fruta, pão, bolacha, o que fosse.


Fiquei pensando nessa condição que não me parece humana... Pedir comida. O homem das cavernas já lutava por ela, e quanto mais comida trazia, mais vigoroso o valorizado ele era. Sentava-se à beira da fogueira e aquecia os ossos, unido à família que o adorava por sua virilidade e coragem.

Eu nunca tinha visto aquele travesti a pedir o que fosse pelas ruas, mas já ouvira, sim, falar dele. Diziam que andava seminu, com uma saia surrada, bem curtinha e uma micro blusa mostrando o peito falso. Era bem alto, de tão magro, curvo. Cabelos grandes e embaraçados, pele bem morena, do sol ou da poeira das calçadas... Cavernas ao ar livre. Essa era a fotografia que me apresentavam dele. Era o que eu sabia: que era assim e que pedia pelas ruas. Quantas coisas pedimos, o quanto mendigamos, quantas fotografias as pessoas fazem de nós por aí? Desci as escadas do sobrado...

O travesti dormia nas marquises, coberto por aqueles cobertores fininhos que se distribuem aos mendigos nas ruas, e ao amanhecer, exibia a magreza gingando esquisito feito modelo em passarela ausente. Eu estava em férias da minha antiga rotina de catalogar peças de museu e, saindo para buscar pães para meus filhos, envoltos em edredons macios, abri o portão no momento em que, novamente, o travesti tocava o interfone: pareceu-me um encontro com algo paradoxalmente novo. Busquei os olhos daquele jovem seminu, o humor aquoso amarelo e zonzo denunciava a noite sem dormir. “Pode me dar alguma coisa de comer, pão velho, pode ser?” Dei a ele duas das cinco notas que levava comigo.

Ele seguiu trôpego sob o sol que aquecia lento aquela manhã.

Mesa posta, café e pão quentinhos. Parecia uma das antigas telas de um pintor impressionista por mim catalogadas. Crianças sorrindo e brincando com a cachorra que, latindo, pedia... Às vezes, alguns pães contrariam nosso paladar. Parecemos surreais. Naquela manhã ensolarada e propícia para a caça dos nossos ancestrais, não sabemos se aquele jovem alheio aos lares tão comuns teria comprado algo para o seu magro estômago, ou ainda, se compraria alguma outra droga para amenizar seus tropeços ou fortalecê-los. O que sabemos é que aquele homem magro e curvo, sujo e de olhos grandes e assustados lembra-nos o Neandertal que levava, heroico, o alimento para a família e, como recompensa, sentava-se ao redor do fogo e recebia o olhar de gratidão e carinho dos seus. Mas esse Neandertal moderno é avesso, dá-se na noite em busca de um carinho vão e, durante o dia, pede o alimento para que possa manter o seu ciclo invertido da vida.


MALABARES


O texto que segue alcançou o 2o lugar no Concurso Literário Ziraldo da Feira do Livro de Ribeirão Preto em junho de 2010. O tema era: Sociedade Brasileira: Opressores e oprimidos.

Malabares

Vi-o hoje pela tarde, na esquina de uma rua central, fazendo malabares, cabelo moicano ou punk, não sei identificar. A última vez que vira Arthur, de longe, como hoje, era show do Zeca Baleiro, na Feira do Livro de 2008 e ambos cantavam; um no palco, outro, no chão: “Ando tão à flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar”.
Sentava-se na segunda carteira da segunda fileira a minha esquerda. Inteligente, miúdo e bonito. Naquela ocasião, penteava os cabelos como qualquer outro garoto de sua idade. Fazia poesia. Entendia tudo o que se explicava na aula. Falava pouco e pensava, sonhava...voava muito. Até hoje tenho dele um poema guardado. Tinha um bom tom de voz e eu sempre lhe pedia para que lesse. Lia para nós o Augusto dos Anjos, os textos de jornais e do livro didático e o Drummond das crônicas e dos poemas gauches da vida. Sua cara de anjo torto era de um Arthur filho de um pai alheio, drogado pelos cantos da casa. A mãe casou-se novamente e o padrasto detestava-o. Mandaram-no seguir seu caminho, fora de casa, em outra arena....
E agora, Arthur? No começo, perdido, entre o aqui e ali, depois: drogas, polícia e noite no conselho tutelar...pelo menos acabara tendo um canto para dormir vez ou outra. Na casa da avó não ficaria, o caminho escolhido não poderia ser outro.
E agora, Arthur, o que fazer com toda poesia que guarda dentro de si? O que fazer com a timidez que sempre disfarçava? É preciso um cabelo em pé e roupas pretas e sujas para ser notado em meio a tantos outros que passam despercebidos pelos bueiros das famílias e pelas ruas coloridas....E agora, Arthur? Não posso mais ler o que escreve...será que você ainda escreve?

Um outro Arthur, mais próximo e próspero manda-me recado pelo Orkut: “tia, passei no vestibular, segundo lugar. Serei doutor pela UNESP”.
Defenderá a vida? Certamente. Inteligente, brilhante, redações pontuais e decisivas... (será que escrever bem é um dom dos arthures?). Bonito e bem tratado: pai-irmão bem sucedido, mãe-abrigo e professora. Casa bonita, amigos companheiros e uma namorada para aprender a amar. Que alegria, que menino feliz...por bênção ou por sorte dos malabares da vida. Nasceu lindo, olhos suaves. Apesar de mais de 1.90m, um gosto ingênuo por tudo, um jeito de quem nunca vai crescer, movido pelos sonhos tão bem amparados e resolvidos, passo a passo, tempo a tempo.
Penso nesses meninos e em tantos outros e penso qual dos malabares escorregou e caiu para que o Arthur moicano esteja nas ruas, dormindo pelos cantos, tropeçando nas próprias pedras que ele eleva no ar.
Talvez precisemos olhar melhor para esses malabares, o que há de errado com eles? Por que escorregam? Ou simplesmente sigamos, convivendo e cruzando- em shows gratuitos, em semáforos centrais- com meninos que escrevem ou escreveram bem um dia. No meio do caminho não faltarão pedras: para uns, leves, para outros, verdadeiros morros, mas não belos como os de Drummond que o Arthur moicano lia naquele ano, na sala de aula, um dia.