segunda-feira, 28 de junho de 2010

Amém


Ontem, fim de semana, resolvi fazer o que o cardiologista ordenou-me incisivamente e caminhei um pouco. Realmente é muito bom caminhar, como diz a crônica de Antônio Prata utilizada pela UNESP deste ano. Acredito que, se estivermos sozinhos, principalmente e, sem fones de ouvido, driblando qualquer distração paralela, a atividade pode ser ainda mais instrutiva e prazerosa.

Eu caminhava e pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo quando vi um grupo de jogadores de futebol num canto, em círculo, falando baixinho, concentrando-se antes da entrada em um campo de pouca grama e muita terra. Da fala quase murmurada, começaram, de repente, a rezar “Pai-nosso, que estais no céu/santificado seja o vosso nome/venha a nós o vosso reino/seja feita a vossa vontade/....”. O tom alto e ritmado de uma grotesca marcha militar levou-me a pensar se Deus realmente gostaria de ouvir a canônica prece naquele tom retumbante e martelado. Ao voltar a atenção para mim, percebi-me, também, num passo aqui e outro ali, ritmando a prece no tom que meus pés solavam.

Acelerei o passo imaginando se, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, quando o poder paralelo executa alguém, no alto do morro, fazem-no rezando em algum ritmo por eles apreciado. Como será que eles transformariam a passagem “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal?” Não seria de admirar que isso ocorresse, já que, tudo, até as maiores atrocidades, neste país católico, é feito em nome de Deus. Políticos desviam verbas e depois falam em nome de Deus. É possível que, ao depositarem em suas contas clandestinas, imaginem que estejam fazendo algum tipo de caridade. Pobres ou milionários jogadores de futebol intitulam-se atletas de Cristo. Será que, vestidos com camisas da Nike, Olympikus ou calçando uma chuteira Adidas, auxiliam-No a carregar a cruz em menos tempo durante o percurso do calvário?

Tudo, absolutamente tudo se transforma em motivos para se referir a Deus. Se um gol aconteceu, foi Deus, se bateu na trave: Deus não quis. Coitado de Deus, vai ver que é por isso que não lhe sobra tempo para cuidar de tantas questões que andam esquecidas aos olhos humanos: talvez os verdadeiros necessitados não saibam rezar e por isso, Deus só consegue ouvir os lamentos que as lentes midiáticas mostram. Vai ver é isso. Não posso acreditar que Deus também tenha sido fisgado pelas notícias focadas aqui e ali e sua visão também tenha sofrido alterações e Ele não possa mais fugir à rede, não possa mais ver o que não se divulga.

Eu não sei, mas durante a caminhada, ouvindo a marcha da oração daqueles jogadores, pensei em minha própria fé. Em que acredito de verdade? E imaginei um Deus cansado e não mais decepcionado, pois não há mais nada a surpreender e a causar novas decepções. Concebi um Deus irônico, rindo de nossa ignorância em pensar que sairemos incólumes a tudo, desde que façamos tudo como se fosse em nome Dele, que Ele constata que somos tão incrivelmente hipócritas que pensamos que o enganamos.

Ai. Virei o pé. Dói, que droga! Bom, dá para continuar caminhando mais devagar, deve ter sido só uma pequena torção, graças a Deus!

27/06/2010





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