quinta-feira, 24 de junho de 2010

JARDIM




Jardim

pensando em Cecília Meireles


Hoje fiz um jardim. Não é um jardim grande, sofisticado, não. É uma floreira quase, pequena, que enchi de terra vermelha e preparada com uma porção de raminhos verdes de que as plantas precisam para crescerem bonitas e viçosas. Tive de socar a terra, com força e com a ponta de uma faca, mas, ainda que parecesse um movimento violento, não tive a intenção. Pensei que tudo que se faz com carinho e com amor fica bonito. Parece piegas, mas é a pura verdade. Não é a mão que tem de ser boa, é o coração, disse-me a Roseli. Por isso, soquei a terra com o coração e plantei as mudas com o coração e amaciei a terra e deixei-a lisinha ao redor das plantas, com o coração. E joguei os cascalhos ao redor das plantas com o coração. E reguei-as depois, com uma água gostosa que também caía nos meus pés, deixando no chão a terra que os cobria, e tudo com o coração.

Fiquei lembrando-me da frase dessa minha amiga, a Roseli. Eu a conheço há tanto tempo e, quando ela e a Valéria vêm a minha casa, deixam-me mais leve. Não somente porque elas me auxiliam nos afazeres, mas porque são alegres, elas fazem as coisas com o coração.

Deve haver muitas roselis e valerias pelas ruas, aquelas pessoas que, apesar da vida doída e dura, fazem as coisas com o coração: auxiliam alguém a encontrar um endereço, sorriem para um desconhecido depressivo (porque o coração nos conduz a descobrir essas pessoas em meio a tantas outras), acariciam um cão perdido e dão pequenas moedas aos mendigos, mesmo sabendo que alguns nem farão bom uso delas. Mas fazem com o coração.

Eu não sei ao certo se, no decorrer de minha vida, tenho feito coisas com o coração, mas acredito que sim, porque mesmo quando eu tenho de parecer cruel e mexer a terra com força, ainda que eu derrube uma ou outra muda fora do canteiro, embora alguns cascalhos façam barulho e caiam das minhas mãos, tenho plantas ao meu redor. Algumas têm espinhos terríveis que, quando nos atingem, machucam e sangramos por alguns dias, até que a pele se renove. Outras são coloridas e viçosas e soam suaves ao menor vento. Umas, são enormes e deselegantes, mas fazem a sombra necessária para as que delas precisam. Outras ainda são pequeninas, mas encantam e perfumam incondicionalmente a grama do jardim.

Hoje eu fiz um pequeno jardim. Não sei se a leveza que sinto é paz ou cansaço, mas estou flutuando, com as penas bambas, soltas, os braços adormecidos: uma folha em voo livre.

Sei que vou dormir mais feliz. Naquele espaço em que havia um vão seco, triste e sem vida, hoje tem um jardim. 23/06/2010

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