
Fotografia
Todos os dias (ou quase), ele passava pedindo alguma coisa. A voz confundia, pelo interfone não denunciava se era homem ou mulher. E naquela manhã, ouvi a campainha soar. Ele pediu algo para comer, qualquer coisa, pão velho, o que tivesse. Eu não sabia dessa rotina e, quando ouvi minha ajudante dizendo “não” ao interfone, perguntei de que se tratava. “Ah, é um travesti que vive pedindo coisa”. Indaguei o que pedia ele e fiquei surpresa com a resposta: “qualquer coisa, pão velho, alguma coisa para comer”. Disse a ela que não deixasse de entregar-lhe algo quando pedisse, que lhe desse alguma fruta, pão, bolacha, o que fosse.
Fiquei pensando nessa condição que não me parece humana... Pedir comida. O homem das cavernas já lutava por ela, e quanto mais comida trazia, mais vigoroso o valorizado ele era. Sentava-se à beira da fogueira e aquecia os ossos, unido à família que o adorava por sua virilidade e coragem.
Eu nunca tinha visto aquele travesti a pedir o que fosse pelas ruas, mas já ouvira, sim, falar dele. Diziam que andava seminu, com uma saia surrada, bem curtinha e uma micro blusa mostrando o peito falso. Era bem alto, de tão magro, curvo. Cabelos grandes e embaraçados, pele bem morena, do sol ou da poeira das calçadas... Cavernas ao ar livre. Essa era a fotografia que me apresentavam dele. Era o que eu sabia: que era assim e que pedia pelas ruas. Quantas coisas pedimos, o quanto mendigamos, quantas fotografias as pessoas fazem de nós por aí? Desci as escadas do sobrado...
O travesti dormia nas marquises, coberto por aqueles cobertores fininhos que se distribuem aos mendigos nas ruas, e ao amanhecer, exibia a magreza gingando esquisito feito modelo em passarela ausente. Eu estava em férias da minha antiga rotina de catalogar peças de museu e, saindo para buscar pães para meus filhos, envoltos em edredons macios, abri o portão no momento em que, novamente, o travesti tocava o interfone: pareceu-me um encontro com algo paradoxalmente novo. Busquei os olhos daquele jovem seminu, o humor aquoso amarelo e zonzo denunciava a noite sem dormir. “Pode me dar alguma coisa de comer, pão velho, pode ser?” Dei a ele duas das cinco notas que levava comigo.
Ele seguiu trôpego sob o sol que aquecia lento aquela manhã.
Mesa posta, café e pão quentinhos. Parecia uma das antigas telas de um pintor impressionista por mim catalogadas. Crianças sorrindo e brincando com a cachorra que, latindo, pedia... Às vezes, alguns pães contrariam nosso paladar. Parecemos surreais. Naquela manhã ensolarada e propícia para a caça dos nossos ancestrais, não sabemos se aquele jovem alheio aos lares tão comuns teria comprado algo para o seu magro estômago, ou ainda, se compraria alguma outra droga para amenizar seus tropeços ou fortalecê-los. O que sabemos é que aquele homem magro e curvo, sujo e de olhos grandes e assustados lembra-nos o Neandertal que levava, heroico, o alimento para a família e, como recompensa, sentava-se ao redor do fogo e recebia o olhar de gratidão e carinho dos seus. Mas esse Neandertal moderno é avesso, dá-se na noite em busca de um carinho vão e, durante o dia, pede o alimento para que possa manter o seu ciclo invertido da vida.
Fiquei pensando nessa condição que não me parece humana... Pedir comida. O homem das cavernas já lutava por ela, e quanto mais comida trazia, mais vigoroso o valorizado ele era. Sentava-se à beira da fogueira e aquecia os ossos, unido à família que o adorava por sua virilidade e coragem.
Eu nunca tinha visto aquele travesti a pedir o que fosse pelas ruas, mas já ouvira, sim, falar dele. Diziam que andava seminu, com uma saia surrada, bem curtinha e uma micro blusa mostrando o peito falso. Era bem alto, de tão magro, curvo. Cabelos grandes e embaraçados, pele bem morena, do sol ou da poeira das calçadas... Cavernas ao ar livre. Essa era a fotografia que me apresentavam dele. Era o que eu sabia: que era assim e que pedia pelas ruas. Quantas coisas pedimos, o quanto mendigamos, quantas fotografias as pessoas fazem de nós por aí? Desci as escadas do sobrado...
O travesti dormia nas marquises, coberto por aqueles cobertores fininhos que se distribuem aos mendigos nas ruas, e ao amanhecer, exibia a magreza gingando esquisito feito modelo em passarela ausente. Eu estava em férias da minha antiga rotina de catalogar peças de museu e, saindo para buscar pães para meus filhos, envoltos em edredons macios, abri o portão no momento em que, novamente, o travesti tocava o interfone: pareceu-me um encontro com algo paradoxalmente novo. Busquei os olhos daquele jovem seminu, o humor aquoso amarelo e zonzo denunciava a noite sem dormir. “Pode me dar alguma coisa de comer, pão velho, pode ser?” Dei a ele duas das cinco notas que levava comigo.
Ele seguiu trôpego sob o sol que aquecia lento aquela manhã.
Mesa posta, café e pão quentinhos. Parecia uma das antigas telas de um pintor impressionista por mim catalogadas. Crianças sorrindo e brincando com a cachorra que, latindo, pedia... Às vezes, alguns pães contrariam nosso paladar. Parecemos surreais. Naquela manhã ensolarada e propícia para a caça dos nossos ancestrais, não sabemos se aquele jovem alheio aos lares tão comuns teria comprado algo para o seu magro estômago, ou ainda, se compraria alguma outra droga para amenizar seus tropeços ou fortalecê-los. O que sabemos é que aquele homem magro e curvo, sujo e de olhos grandes e assustados lembra-nos o Neandertal que levava, heroico, o alimento para a família e, como recompensa, sentava-se ao redor do fogo e recebia o olhar de gratidão e carinho dos seus. Mas esse Neandertal moderno é avesso, dá-se na noite em busca de um carinho vão e, durante o dia, pede o alimento para que possa manter o seu ciclo invertido da vida.
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