Capítulo do livro Vale a escrita? Criação e crítica na contemporaneidade, publicado pela UFES, Vitória, 2003, p.p.157-168
“A poesia não se confunde com o verso. (...) Pode haver poesia em prosa e poesia em verso livre. (...) Sabemos inclusive que ela não se contém apenas nos chamados gêneros poéticos, mas pode estar autenticamente presente na prosa de ficção.” (Antonio Candido[i])
No final da década de 70, enquanto João Antônio percorria as “árduas” trilhas, próprias do caminho literário, retratando os viradores e malandros da vida noturna e, já era considerado por Antônio Cândido como uma dos maiores representantes do chamado “realismo feroz” [ii], eu era uma adolescente que imaginava, na noite e nos rostos magros que a habitam, um delirante fascínio. Porém, vivendo uma realidade totalmente adversa ao mundo marginal, as madrugadas correspondiam apenas ao meu universo de aspirações. Por isso, falar de João Antônio é, particularmente, uma tarefa muito especial. Quando as madrugadas me chamavam e eu não podia atender ao seu convite, descobri Malagueta, Perus e Bacanaço na pequena, mas significativa biblioteca que meu irmão mais velho degustava. Peguei-o sem compromisso e o mergulho nas madrugadas malandras preencheu minhas aspirações tão ansiosas. Afoguei-me naquele mundo desconhecido e narrado de maneira tão singular que me intrigava. Não imaginava que textos tão incisivos pudessem ter tanto lirismo. A vida seguiu seu curso e, um dia, ao trabalhar a literatura em uma aula, apresentei João Antônio aos alunos de um terceiro ano do Ensino Médio e revivi,mesmo após alguns anos, a sedução de seus textos. As bolas de sinuca rolavam no pano verde...As madrugadas insistiam no convite para a aventura, para a reflexão, para a poesia...
Sem dúvida, a poesia navega nas veias marginais dos contos de João Antônio e neles marca, indubitavelmente, sua presença. Não podemos deixar de considerar relevante o fato de estarmos falando de contos. Nádia Battela Gotlib[iii] lembra-nos do estudo de Edgar Alan Poe sobre a unidade de efeito. No estudo de Poe, verifica-se que o escritor aplica ao conto as mesmas propostas de leitura e de teoria aplicadas ao poema. O conto, por ser uma história cuja leitura se realiza “de uma só sentada”, aproxima-se do poema que “induz a uma exaltação da alma que não pode ser sustentada por muito tempo”.
Diferentemente do romance, no conto “o autor é capaz de realizar a plenitude de sua intenção, seja ela qual for. Durante a hora da leitura atenta, a alma do leitor está sob o controle do escritor”[iv].
Privilegiando a unidade de efeito, o conto se aproxima mais da poesia do que da prosa, pois a eficácia e o sentido do conto “dependem destes valores que dão um caráter específico ao poema e também ao jazz: a tensão, o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto dentro dos parâmetros pré-vistos, essa liberdade fatal que não admite alteração sem uma perda irreparável”.[v]
Paul Valéry[vi] nos ilumina ao dizer que a narrativa é como uma marcha e a poesia, “arte da linguagem”, é como uma dança. E dançar é repetir passos, pois cada repetição traz aos passos nova leveza ou novo “ataque”. A escrita de João Antônio é marcada por movimentos que se repetem à semelhança da dança. A recorrência de temas, de estruturas, de palavras, de figuras em sua escrita caracterizam a poética de sua narrativa. Assim, a poesia não é avessa ao “realismo feroz” e João Antônio a introduz e a eterniza em muitos dos seus contos, como por exemplo, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, “Frio”, “Paulinho Perna Torta”, entre outros, em que a rua compõe o espaço percorrido pelo narrador poético.
Para melhor mostrarmos o modo poético e singular de narrar do autor, lançamos mão de algumas observações de Jean-Yves Tadié[vii] sobre a narrativa poética e escolhemos, para análise, o texto “Busca”, o primeiro da premiada coletânea Malagueta, Perus e Bacanaço, um conto ímpar em que a poesia salta aos olhos. Embora não narre a vida dos tão conhecidos viradores e malandros noturnos, “Busca” tem Vicente como personagem-narrador, um homem que, apesar de não avesso ao dia e vivenciar as madrugadas, também sente-se avesso, desencontrado no mundo em que vive. Trabalha como soldador, vive com a mãe, aparentemente uma dona de casa e, num início de tarde de domingo, sai para caminhar, sem rumo, em busca de algo que nem mesmo ele sabe definir. Durante a caminhada, ele relembra fatos de sua infância, começa a pensar em seus primeiros fios de cabelos brancos e percebe que os sonhos por ele almejados, movidos pelo destino, escaparam-lhe. Sendo Vicente personagem-narrador, o conto apresenta uma “visão com”: “É ‘com’ ela [personagem] que vemos as outras, é ‘com’ ela que vivemos os acontecimentos contados. Sem dúvida que não deixamos de ver o que se passa nela, mas somente na medida em que o que se passa em alguém aparece a esse alguém”.[viii]
A focalização escolhida pelo autor nos permite “caminhar” com a personagem, não só pelas ruas, como também em meio a suas lembranças. Enquanto Vicente caminha, as lembranças do passado vão surgindo por meio de retrospecções. À medida que isso ocorre, o personagem-narrador vai nos explicando sua história. Assim, a ordem do discurso não coincide com a dos acontecimentos ocorridos na diegese, caracterizando “Busca” como um conto de atmosfera - terminologia utilizada por vários teóricos sobre o conto, inclusive por Nádia B.Gotlib[ix] para caracterizar o conto cuja ordem do discurso é privilegiada pelo ir-e-vir do monólogo interior de uma ou demais personagens.
Apesar de não ser longo, o conto é separado por asteriscos e dividido em três partes. A primeira parte - início do discurso - é também o início da história. Nessa parte, o narrador-personagem informa que não vive com nenhuma mulher a não ser com a mãe - aparentemente, uma dona de casa. Sabe-se, também, que uma jovem chamada Lídia, amiga de sua mãe, interessa-se por ele. “Por que diabo essa menina cismou comigo?”[x].
Ainda na primeira parte, Vicente, em seu caminho, atravessa uma ponte,momento em que ocorre uma retrospecção que vai revelar, por meio do monólogo interior, quando e por que Vicente adquiriu sua “mania” de andar. A ponte é um símbolo que representa a passagem do tempo presente para o passado do protagonista:
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem. (...) Desde que papai morreu, esta mania. Andar. Quando venho do serviço, num domingo, féria, a vontade aparece. O velho, quando vivo, fazia passeios a Santos, uma porção de coisas. Bom. A gente se divertia, a semana começava menos pesada, menos comprida, não sei. Às vezes, penso que poderia recomeçar os passeios.[xi]
A ausência do pai torna a vida de Vicente opaca, sem perspectivas, levando-o a assumir o papel paterno em resposta à impossibilidade de alcançar seu próprio lugar no mundo. É no subir e descer das ruas que relembra as alegrias vividas na presença do pai, buscando-as dentro de um espaço perdido em si mesmo.
Segundo Tadié[xii], o narrador poético é atraído por lugares afastados, escuros, fechados, distantes dos abjetos aspectos do mundo por ele julgado. O narrador-personagem de “Busca” opta pelas ruas distantes das de sua casa. Ele procura, nas veias da cidade, um sentido para sua vida. Portanto, as ruas compõem o espaço poético que interrompe o tempo exterior para que Vicente busque a si mesmo no tempo interior. Parafraseando Tadié, na narrativa poética há uma busca para escapar ao tempo, voltando às origens da própria vida, ou da história, ou do mundo.
Em outra retrospecção, também na primeira parte, o narrador-personagem conta que, desde menino, exerce a mesma ocupação: trabalhar com solda: “Lá na oficina me fazem uma adulação nojenta, porque sou da coisa. chefe da solda. Ora, desde menino nesta ocupação, é claro que entendo da coisa. Por isso certos fulanos se encostam, agrados para pedir isto e aquilo. Mas Luís é ótimo, não adula. Só abre a boca para coisa aproveitável”.[xiii]
A personagem justifica o cargo de chefia contando-nos que trabalhou como soldador desde criança e notamos que o fato de Vicente ser chefe parece incomodá-lo, pois acredita que as pessoas o adulam não por gostar realmente dele, mas por interesse ou medo de serem repreendidos.
Considerando-se que a solda une peças metálicas e que o metal é algo rígido, difícil de ser transformado, podemos entender que Vicente tenta “soldar” também a rigidez de seu passado - a perda do pai, o fato de não poder mais lutar boxe - ao seu rígido presente - a busca de si mesmo. Vicente “solda” também seu tempo interior à sua caminhada pelas ruas, sem destino definido.
O ir-e-vir dos pensamentos do protagonista é traduzido pelo monólogo interior, unindo o tempo exterior ao tempo interior, como podemos observar na transcrição da passagem do conto:
Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xiv]
A união dos dois tempos intensifica o duelo que a personagem trava consigo mesma por não conseguir atender às expectativas atribuídas às pessoas de seu convívio.
No final da primeira parte, Vicente, em uma rua desconhecida, depara-se com um garoto também desconhecido, passagem em que o narrador é bastante feliz em suas metáforas e em seu lirismo:
O meu sapato novo estava começando a se empoeirar.
Entrei por uma rua que não conhecia. Olhava para tudo. Jardins, flores, mangueiras esquecidas na grama, gente de pijama estendida nas espreguiçadeiras. A bola de borracha subia e descia no muro. Um menino veio. O que eu adoro nesses meninos são os cabelos despenteados. Chutei-lhe a bola, que ela corria para mim. Transpirava, botou a mão no ar agradecendo.
- Legal.
Ele disparou, vermelho de sol.[xv]
A personificação do sapato novo que “estava começando a se empoeirar” é a metáfora do caminho - da vida do narrador-personagem - que já não se sente tão jovem. Esta passagem antecipa o que, mais adiante, ele nos revela ao falar de seus primeiros cabelos brancos que “acima da costeleta, apontam incisivos, provavelmente não demorarão a pintar tudo de branco.”[xvi]
Às palavras vermelho e sol, “associa-se tudo o que é belo, nobre, generoso elevado”[xvii]. A rua e o garoto desconhecidos levam a personagem a se lembrar do Vicente-menino, feliz e cheio de energia, desfrutando a beleza e a liberdade de um garoto; um Vicente de quem ele gostava e que via a rua como um espaço para buscar diversão e aventura; um Vicente que ele já não reconhece e que, como o garoto desconhecido, busca, na rua, algo para preencher seu vazio; ele procura uma “bola com que possa jogar”, uma aventura, acessível em seu momento presente, somente em pensamentos. O menino “vermelho de sol” é o espelho de seu passado e faz com que nosso protagonista se lembre de seu sonho elevado e interrompido por um episódio em sua juventude, relatado logo no início da segunda parte do conto, por meio de outra retrospecção:
- Desta vez ele vai!
Girei para a esquerda, soltei o direito. Caprichava, tanta certeza eu tinha. Aquele mulato não agüentaria mais um “round”.
Um sujeito lá embaixo:
- Desta vez ele vai!
O mulato defendeu, deu uma gingada, ganhou a brecha. Largou o braço. Que técnica! Quem é que poderia esperar aquilo?
Golpe, dor, choque, sangue, escuridão, zoeira, lona. Cara na lona. Eu jamais esqueceria! [xviii]
Novamente, é caminhando que Vicente relembra sua última luta de boxe, da qual sai como perdedor, levando seu sonho de lutador “à lona”. Ele apresenta um problema no fígado, sente-se desanimado mas, incentivado por Freitas, seu treinador, submete-se a uma cirurgia na esperança de poder continuar lutando.
Embora o médico cure a doença de Vicente, nosso boxeador fica impossibilitado de voltar aos campos de luta. Seu grande sonho lhe é amputado e ele perde aquilo que o fazia sonhar e ser alguém cheio de entusiasmo pela vida, cheio de desejo de buscar...
Na terceira parte, o presente da enunciação é retomado e a personagem chega à casa de Luís, o empregado da oficina, cujo comportamento Vicente admirava:
Luís ficou muito contente. Jamais pensei que ele tivesse casa tão bem disposta. Capricho nas paredes, tinhorões no jardim. Em seu quarto, mostrou-me livros, entusiasmou-se com uns desenhos sobre a prancheta. Disse-lhe sem sentir, olhando linhas em nanquim preto:
- Você deve continuar. Desenho arquitetônico dá dinheiro, rapaz - lembrei-me de Freitas naquela hora.
Chateza na tarde. Ia para os lados do Piqueri. Havia bebericado conhaque num boteco, jogado uma partida de bilhar com Luís. Fingira atenção nas tacadas, um capricho que não é meu. Sorrira, pegara no giz, insinuara apostas. Mas por dentro estava era triste, oco, ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem Lídia, nem. (...)
Andando tão devagar. Procurava alguma coisa na tarde. O vento esfriou. Não sabia bem o que, era um vazio tremendo. Mas estava procurando.[xix]
Vicente incentiva Luís a continuar com os desenhos, assim como Freitas, mecanicamente, incentivou-o a continuar lutando, estabelecendo-se assim, um jogo entre o sonho e a possibilidade do real. Ao chegar à casa de Luís, Vicente reconhece na “casa tão bem disposta, capricho nas paredes, tinhorões no jardim”, a segurança que procura. A casa significa o ser interior, ela “abriga o devaneio e protege o sonhador”. O jardim simboliza a cultura, a espontaneidade e o equilíbrio. Luís é equilibrado, espontâneo e sonhador. Ele é o espelho do homem que Vicente queria ser e não é. Luís tem seus sonhos “abrigados”, como um menino e deseja concretizá-los. Vicente não consegue ficar em casa, pois seus sonhos foram “nocauteados” no passado. Seu nome, ironicamente, simboliza “aquele que vence” e ele está em busca de algo que se perdeu no tempo: “ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem lídia, nem.” O objeto da verdadeira procura de Vicente não é algo visível, que está ao seu alcance. O que ele busca está perdido na tarde, metáfora do seu tempo interior, ao qual ele chega enquanto caminha. A tarde simboliza o tempo que separa a manhã - o passado, relembrado em seu monólogo -, e a noite - seu futuro, do qual sua única certeza é a presença incisiva dos cabelos brancos.
Sentado num banco de praça, o narrador-protagonista inicia uma descrição de suas lembranças, interrompidas com a chegada de uma garotinha:
Tempo-será das crianças no jardim público. Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças - tempo de quartel, maluqueiras, farras, porres. Boxe, boxe! Uma frase qualquer me veio na tarde. Ouvida na oficina, na casa de Luís, não a localizava precisa, nem onde. Só sabia que falava nos primeiros cabelos brancos que tenho.
Acima da costeleta, apontam incisivos; provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco. Uma criança passou-me, deu-me um tapinha no joelho. Achei graça naquilo, sorri, tive vontade de brincar com ela. Ficamos nos namorando com os olhos. Ela se chegou, conversamos. Perguntei essas coisas que se perguntam às crianças. Em que ano do grupo está, quantos anos tem, gosta daquilo, disto... O sorveteiro com o carrinho amarelo. Paguei-lhe um sorvete de palito, e ficamos eu e a menina até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça. (...)
Agora o sol descendo por completo. Uma lua em potencial, lá em cima, ganhava tons, parecia uma bola de ocre. Enorme, linda. Meus olhos divisavam no fundo de tudo o Jaraguá, mancha grande meio preta, meio azul... Meus olhos não precisavam. Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.
Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque.[xx]
Percebe-se, novamente, que Vicente fala do passado, mas situa-se no presente e vê no futuro apenas o fato de envelhecer. A oposição presente x passado, leva-nos a concluir que a personagem tem saudades do passado, de sua infância que provavelmente deixou um gosto de alegria, de amparo. No passado havia o “sol”, o brilho da juventude, o sonho a ser realizado. No presente, adulto e avistando seus primeiros cabelos brancos, o narrador sente “um tremendo vazio”. Seu olhar para o futuro também não é de otimismo - “os cabelos brancos apontam incisivos, provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco”. Vicente vê seu sonho se perder tanto nos “aventais muito brancos da empregada a surgirem na praça” que levam a menina com quem conversava e o fazia reviver um passado interior, como nos “incisivos” fios brancos que lhe apontam nos cabelos e que levam sua juventude física, exterior. O fato de envelhecer perturba-o, como observamos também em outro monólogo interior: “Preciso cortar à escovinha. Assim escondo os começos de cabelo branco...”. Quanto mais brancos se tornarem os cabelos de Vicente, menos “vermelho de sol” ele estará e o seu sonho tornar-se-á cada vez mais nublado, mais opaco, mais distante.
Notamos na narrativa uma construção poética alicerçada pelo jogo de cores pintado pelo narrador. O vermelho, a vida da juventude, mescla-se ao branco da lua, dando a ela um tom ocre no “meio preto, meio azul” do céu. A lua branca recebe tons e se renova, contrapondo-se aos cabelos brancos de Vicente que somente “cortados à escovinha”, bem curtos, talvez possam ser ocultados, e não podem ser renovados. O protagonista tenta "soldar" o seu tempo de alegria - quando ele queria e podia realizar o que quisesse (juventude, desejo de lutar, sonhos) ao tempo de sua insconsciente busca, ao tempo do “tremendo vazio” (o de não poder lutar boxe, o da ausência do pai, o vazio do “sapato que começava a se empoeirar”).
Os cabelos brancos levam Vicente a refletir sobre o seu presente e a reconhecer a harmonia do passado. O narrador-personagem leva-nos a partilhar dos seus sentimentos nostálgicos, principalmente nas passagens em que ele se depara com crianças - ele chuta a bola para o garoto; acha graça, sorri e conversa com a menina “até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça”. Cabelos e aventais brancos personificados trazem Vicente para o presente que o angustia.
Além das metáforas e dos símbolos, observamos nos tempos verbais destacados no trecho a seguir, que o narrador-protagonista estabelece um ritmado jogo temporal - outra característica de narrativa poética - quando fala do passado, mas situa-se no presente e antecipa o futuro. O jogo ocorre com a alternância dos verbos - gerúndio, pretérito e presente - conforme se intercalam as técnicas do fluxo da consciência - monólogo interior inserido na narração da personagem:
Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xxi]
O narrador-personagem está sempre presente e interrompe a narrativa atribuindo a ela um ritmo fragmentado, uma descontinuidade, utilizando-se do ir-e-vir entre narração e fluxo da consciência, fazendo com que a linguagem acompanhe o pensamento do protagonista.
O primeiro parágrafo do conto traz a voz da mãe: “- Vicente, olha a galinha na rua! Abri o portão, a galinha pra dentro”. A mãe pede a Vicente que pegue a galinha que fugiu e tenta retardar a saída do filho, argumentando que o sol está alto: “ Espera o sol descer um pouco”. Na verdade, a mãe quer que ele fique porque Lídia, que se interessa por ele, chegará a casa e a mãe deseja vê-los juntos. Mas Vicente quer sair, precisa fugir como a ave e “conduzir sua alma”, caminhando - hábito adquirido desde que o pai falecera. Ao caminhar, ele observa seus sapatos: “Meu sapato novo estava começando a se empoeirar”.
Enquanto caminha, seus passos conduzem-no ao passado: “Na rua de pedregulho mal socado o sapato novo subia, descia”. Percebe-se que a personagem chega a lugares externos e internos involuntariamente.
De acordo com Tadié[xxii], a rua corresponde à rota, ao itinerário. É um espaço natural que orienta uma possível descoberta. A caminhada do protagonista é exterior e interior - rua/vida; sapato/ele, busca. Quando o sol se põe e a lua surge “em potencial, lá em cima (...). Enorme, linda”, Vicente está voltando para casa, uma volta que ele prevê repetitiva, “morna”: “Chegaria em casa, beijo na testa da mamãe, cumprimentos para Lídia. Ela repetiria o jogo - indiretas, risinho, interesse, por que não faço isso, por que não gosto de... Mas o vazio não passaria. Comer alguma coisa, botar o paletó. Andar de novo”.
Novamente, nosso narrador deixa transparecer sua incredulidade em relação à mudança de perspectiva em sua vida. No presente, já adulto, sente-se fracassado e conta para si e para o leitor também os insucessos de seu próprio passado.
Conforme nos ilumina Tadié[xxiii] um narrador que é personagem desdobra-se entre um eu-protagonista e um eu-narrador. Desdobrado em narrador (no presente) e protagonista (no passado), Vicente observa sua vida e busca uma resposta que possa amenizar sua angústia. Essa procura ocorre também durante o percurso da volta a casa, quando repensa o trabalho, os sujeitos aduladores, em recomeçar com a mãe os passeios a Santos, a Campinas... Pensa que a garotinha do parque poderia ser sua filha, que Lídia era uma boa moça... Observa “o sol descendo por completo” e uma lua “enorme, linda”. A lua, entre tantas significações, “é para o homem o símbolo da passagem da vida à morte e da morte à vida”:
a lua fala, no interior da constelação de nascimento do indivíduo. (...) A zona lunar da personalidade é esta zona noturna, inconsciente, crepuscular de nossos tropismos, de nossos impulsos instintivos. É a parte (...) que modela nossa sensibilidade profunda. É a sensibilidade do ser íntimo entregue ao encantamento silencioso de seu jardim secreto impalpável canção da alma, refugiado no paraíso de sua infância, voltado sobre si mesmo, encolhido num sono da vida - senão entregue à embriaguez de um arrepio vital que arrebata sua alma caprichosa, vagabunda, boêmia, fantasiosa, quimérica, ao sabor da aventura... [xxiv]
Ao chegar a noite e ao avistar a lua, Vicente mergulha na quimera de poder transformar sua vida: “Talvez as semanas começassem melhores, menos compridas. (...) Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque”. A personagem se lembra de que precisa retirar o limo das paredes do tanque, passagem que ocorre logo no início da diegese: “Derramei, fiquei olhando a água no cimento. Aquilo estava era precisando duma escova forte. Começo de limo nas paredes. Sujeira. Quando voltasse, daria um jeito no tanque. As manchas verdes sumiriam”.[xxv]
O limo[xxvi] simboliza “o início da degradação”, a marca de que o tempo passou impiedosamente, e, limpá-lo, significa renovar-se, buscar novos rumos, novos sonhos... Vicente percebe a necessidade de mudar, mas não tem certeza de que possa realizar seu intento. Ele, narrador, sugere que uma mudança, talvez, possa ocorrer. “Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.”
Somos, assim, convidados à dúvida. A tarde é o tempo da caminhada de nosso protagonista, é o espaço de sua busca.
O itinerário da narrativa poética é, segundo Tadié[xxvii], marcado pelos espaços entre a viagem exterior e a interior da personagem: a sua busca. É justamente esse espaço que o narrador escolhe para criar e imprimir o tom de sua poesia. Vicente procura a lua “enorme e linda” que, “embora privada de luz própria e não passar de um reflexo do sol”, dá-nos a impressão de que faz reluzir nele a possibilidade de preencher seu vazio, de procurar, de buscar “cor” para o seu momento presente e para o seu futuro, a sua noite que “apresenta um duplo aspecto, o das trevas em que fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia, de onde brotará a luz da vida.”[xxviii]
Referâncias Bibliográficas
[i] CANDIDO, A . O estudo analítico do poema. São Paulo: FFLCH-USP, 1967, p.13
[ii] Id.. A nova narrativa. A educação pela noite. São Paulo: Ática, 1987, p. 210-211
[iii] GOTLIB. N.B. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2001, p. 33
[iv] Ibid, p.34
[v] VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991, p.235
[vi] Ibid, p.205-212
[vii] TADIÉ, J. Y. Le récit poétique. Paris: PUF, 1978
[viii] POUILLON, J. O tempo no romance. São Paulo: Cultrix, 1974, p.54
9 GOTLIB, op. cit. p. 17, 2
10ANTÔNIO, J. Busca. Malagueta, Perus e Bacanaço. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p.12
11 Ibid, p.12
12TADIÉ, op. cit. p.83-85, 6
13 ANTÔNIO, op. cit. p.12-13, 9
14 Ibid, p.12
15 Ibid, p.12-13
16 Ibid, p.12
17 CHEVALIER E GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1982, p. 800
18 ANTÔNIO, op. cit. p.14-15, 9
19 Ibid, p.15
20Ibid, p. 15-16
21Ibid, p.12
22TADIÉ, op. cit. p. 63, 6
23Ibid, p.19-20
24CHEVALIER, op. cit. p.564-565, 16
25ANTÔNIO. op. Cit p.11, 9
26CHEVALIER, op. cit. p.534, 16
27TADIÉ, op. cit. p.67, 6
28CHEVALIER, op. cit. p.640, 16
Nenhum comentário:
Postar um comentário