terça-feira, 22 de junho de 2010

João Antônio: O Narrador da ociosidade


Capítulo do livro Análise Literária: Tendências contemporâneas, publicado pela EDUFU, Uberlândia, 2003, p.p.33-37


Frio
O frio percorreu as veias da noite
E o destino, cruel açoite
Degelou brutalmente
O sangue, numa chibatada (da autora)



Falar de João Antônio é, particularmente, uma tarefa muito especial. Conheci Malagueta, Perus e Bacanaço na adolescência. Ele estava lá, na pequena, mas significativa biblioteca que meu irmão mais velho degustava. Iniciei a leitura sem nenhum compromisso e o mergulho nas madrugadas malandras me fascinou. Afoguei-me deliciosamente naquele mundo tão desconhecido para mim. A vida seguiu seu curso e, um dia, apresentei João Antônio aos meus alunos de um terceiro ano do Ensino Médio e vi que, mesmo após bons anos, a sedução de seus textos era latente; as bolas de sinuca rolavam no pano verde, as madrugadas convidavam para a aventura, para a reflexão, para a poesia...
Seguidor apaixonado de Lima Barreto a quem chamava de “pioneiro devastador rasgadamente brasileiro”(Steen, Edla Van. In: Viver & escrever, p.138), “escritor que inaugurou no papel o subúrbio carioca”(O Romancista com alma de bandido tímido, In: Dama do Encantado, p.89), João Antônio leva para seus contos as marcas de seu tempo, mas vai além, navega nas veias da malandragem, recolhe os cacos das madrugadas, os retalhos, o gosto, o odor... e mesmo tomando como referência a feroz vida bandida, seus textos transbordam de lirismo:

Perus acompanhava os dois, mas olhava o céu como um menino num quieto demorado e com aquela coisa esquisita arranhando o peito. E que o menino Perus não dizia a ninguém. Contava muitas coisas a outros vagabundos. Até a intimidade de outras coisas suas. Mas aquela não contava. Aquele sentir, àquela hora , dia querendo nascer, era de um esquisito que arrepiava. E que julgava pela força estranha, que aquele sentimento não era coisa máscula, de homem.
Perus olhava. Agora a lua, só meia- lua e muito branca, bem no meio do céu. Marchava para o seu fim. Mas à direita, aparecia um toque sangüíneo. Era um rosado impreciso, embaçado, inquieto, que entre duas cores se enlaçava e dolorosamente se mexia, se misturava entre o cinza e o branco do céu, buscava um tom definido, revolvia aqueles lados, pesadamente. Parecia um movimento doloroso, coisa querendo arrebentar, livre, forte, gritando de cor naquele céu. (“Malagueta, Perus e Bacanaço”, p. 150)



Seria o rosado do céu, entre o cinza e o branco, uma metáfora de Perus e de seus companheiros “conluiados”? Não estaria Perus desejando rebentar como a manhã?
Outro, entre tantos exemplos do lirismo joãoantoniano pode ser destacado também no conto “Frio”:
Pequeno, feio, preto, magrelo. Mas Paraná havia- lhe mostrado todas as virações de um moleque. Por isso ele o adorava. Pena que não saísse da sinuca e da casa daquela Nora, lá na Barra Funda. Tirante o que, Paraná era branco, ensinara- lhe engraxar, tomar conta de carro, se virar vendendo canudo e coisas dentro da cesta de taquara. E até ver horas O que ele não entendia eram aqueles relógios que ficam nas estações e nas igrejas- têm números diferentes, atrapalhados. Como os outros, homens e mulheres, podem ver as horas naquelas porcarias? (“Frio”, p. 61-62)


“Frio”, um dos nove contos de Malagueta, Perus e Bacanaço foi o texto que mais “incomodou” minha leitura adolescente. Se W. Kayser (1968, p.272) em sua definição de conto diz que “o que lhe dá unidade é, primeiramente, como diz o nome, o seu caráter de ser contado ou poder ser contado” e Horacio Quiroga (1970) associa os contos à narrativa oral e completa: “o homem contará sempre, por ser o conto a forma natural e insubstituível de contar”, por que Frio não me pareceu fácil de ser contado? Por que Nego, pelo caminho, deparou-se com um cão morto na sarjeta? Por que um conto que nem é longo está separado por asteriscos? Por que havia aquele muro? Por que Nego urinou no muro? O texto, apesar de não ser longo, sem dúvida, quebra os elementos espaciais e temporais tradicionais de um romance ou de um conto. Ele rebenta a tranqüilidade do leitor e o carrega não só para a gélida madrugada, mas para a reflexão sobre a sociedade fragmentada, sobre o também homem fragmentado, solitário. Solitários e fragmentados são os pensamentos, os monólogos da personagem Nego. Ele é um garoto perdido, tal como o foi seu “mestre” Paraná. Em “Frio”, a narrativa sugere níveis de significados por meio de imagens e símbolos. Frios são os espaços externo e interno (a noite é fria, sem lua- o garoto é negro e está só). O que aquece Nego são os seus pensamentos- o alimento, o leite quente que o ampara. A descrição onisciente e o monólogo interior são utilizados para representar não apenas a diegese, mas o aspecto da dualidade da vida humana. Espaço e tempo se misturam à personagem sem nome. Paraná também não tem nome. Defende o garoto e o coloca em perigo. Dá-lhe calor e frio. Branco e preto vivem à margem, conluiados na veia marginal. A malandragem é herança que passa de “pai para filho”. Aprendiz obedece ao mestre e ambos obedecem às regras de um mundo às avessas. Ambos, anônimos, alimentam-se da solidão. Toda sinestesia presente na narrativa, todas as sensações físicas (frio, fome, desejo de urinar) relacionam-se ao medo, à solidão, ao desamparo de Nego: sua condição dentro da sociedade e da vida. Nego pula e repula o muro “alto e difícil” na visão de Paraná, depois livra-se do incômodo desejo de urinar que o perturbou durante todo o percurso. O ato de urinar, embora caracterize o grotesco, tem um lirismo subentendido: a ironia da superação das dificuldades, o fato de livrar-se do que (ou de quem) lhe tira o sono. O narrador, em “Frio”, joga com as palavras, com a composição do conto, retrata a malandragem sem se desviar do lirismo, viaja pela madrugada sem lua não só acompanhando o herói (ou anti- herói), mas também no interior do herói e luminosamente reflete ao leitor as sensações pelo herói experimentadas. Ele sabe mais que o herói, no entanto, o mais ele não conta, sugere por meio de imagens e, mesmo narrando sem da história ser personagem, o narrador se compadece do menino e do homem. É um narrador poético (Benjamin, p. 201), “o narrador retira da experiência o que ele conta, sua própria experiência ou a relatada pelos outros [,] incorpora as coisas narradas à experiência de seus ouvintes [,] o romancista segrega-a. A origem do romance é o indivíduo isolado, que não pode mais falar exemplarmente sobre suas preocupações mais importantes e que não recebe conselhos nem sabe dá-los”; (p.118) “os homens aspiram a um mundo em que possam ostentar tão pura e tão claramente sua pobreza externa e interna” e (p.213) “o leitor de um romance é solitário”, busca nos romances o sentido para sua vida sem sabedoria.
João Antônio assemelha-se ao narrador de romances por expor ao leitor a visão do mundo fragmentado, opaco, divisado, individualista e sem sabedoria. Em Frio, o narrador leva o leitor a perceber que tanto Paraná como Nego são açoitados pelo destino: Paraná como um cão morto na sarjeta e Nego com um muro a ser pulado pela manhã, uma manhã que não se adivinha se será gélida como a noite sem lua ou se terá sol para aquecer o menino solitário. Por outro lado, ainda segundo Benjamin, (p.214) “o grande narrador tem sempre suas raízes no povo”, Paraná e Nego são ociosos das ruas.
O velho Malagueta, o picante Bacanaço e o jovem Perus andam pela madrugada paulistana jogando sinuca, ouvindo e contando suas próprias histórias e as de outros velhos jogadores e viradores, divagam, apesar de unidos, solitários do resto do mundo:

Mas era noite de sábado e houve lados por onde passaram, apequenados e tristes. Vaivém gostoso dos chinelos bons de pessoas sentadas balançando-se nas calçadas, descansando (...)aquela gente bem dormida, bem vestida e tranqüila dos lados bons das residências da Água Branca e dos começos das Perdizes.
Aqueles viviam. Malagueta, Perus e Bacanaço, ali desconcertados. Não pertenciam àquela gente banhada e distraída, ali se embaçavam (...) Se gramassem atrás do dinheiro (...) se evoluíssem malandragens (...) teriam o de comer e o de vestir no dia seguinte (...).
Aqueles tinham a vida ganha. E seus meninos não precisariam engraxar sapatos nas praçase nas esquinas, lavar carros, vender flores (...)
Um sentimento comum unia os três, os empurrava. Não eram dali. Tocassem. (´Malagueta, Perus e Bacanaço”, p.127)




“Malagueta” (chamemos assim o conto) e “Frio” terminam com o amanhecer. Morre a noite e o nascer do novo dia trará outra noite, outros jogos, outros dias... Os dois contos quebram a distância estética com o leitor, falam a linguagem da malandragem, carregam o leitor para as veias da madrugada bandida e, pelo fato de estarem assim tão “conluiados” às raízes dessa identidade marginal, o narrador de ambos assemelha-se ao sábio narrador da tradição oral que deixa sua marca “como a mão do oleiro na argila do vaso”. É verdade que diante da modernidade capitalista não há relações de trabalho artesanal a serem contadas, nem a vida brilhante de heróis que fazem a história. Mas há o jogo que parodia o jogo da própria vida, há a disputa, a falta de identidade dos artistas da malandragem, dos anti-heróis da modernidade que estão desprovidos até do próprio nome. Por esse motivo, é possível encontrarmos em João Antônio o narrador experiente que, mesmo convertendo em contos os cacos, os fragmentos, os retalhos das noites, mesmo se deparando com um leitor solitário em busca de um sentido para sua vida, convida esse leitor para o jogo da leitura narrando poeticamente a vida dos artesãos da ociosidade.
 Olá, meu parceirinho! Está a jogo ou a passeio? (...)
 Vamos brincar? (Malagueta, Perus e Bacanaço, p. 101)




Bibliografia

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STEEN, Edla Van. Viver & escrever. Porto Alegre: L&PM, 1981
























Um comentário:

  1. Adorei os textos. É uma ótima forma de mostrar o seu talento para todos nós. Um grande abraço!
    Luiz Cláudio

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