sábado, 11 de dezembro de 2010

MARIONETES TÊM CÉREBRO

http://g1.globo.com/profissao-reporter/noticia/2010/12/professores-nao-conseguem-dar-aula-em-escola-de-santa-catarina.html

Palhaço? Colega? Amigo? Pai? Tio? Mãe? FDP? Vaca? Afinal, o que é ser professor numa escola pública, seja em qual estado da federação for? Tem de ser psicólogo? General? Contador de piada? Deixar jogar baralho? Mexer no celular na hora da explicação? Tem de fingir que não vê o que vê demais? Tem de ser surdo, mudo, cego, coxo, “manero”, legal? Já me chamaram de “zica” porque pedia para não esquecerem o livro...Um aluno, certa vez, disse-me que eu não trabalhava, quem trabalhava de verdade era a mãe dele que levava privada dos outros. Pois é, e eu, há mais de 20 anos, limpo as latrinas de uma educação que escorre suja e repleta de vermes entre valas que aglomeram seu fedor acérrimo.


Desculpem-me a revolta, mas depois de ver o vídeo do Profissão Repórter fiquei pensando no professor de história diante de sua impotência, simplesmente pelo fato de querer exercer sua função real: dar aulas.

Um professor estuda alguns bons anos, aprende conteúdos que supostamente serão exigidos aos alunos quando do ingresso numa universidade séria e decente. Se ele não conseguir trabalhar esses conteúdos, o aluno não terá chances de competir pela vaga. Mas, como ele irá ensinar se não há quem queira aprender? E quando há, sempre existem os que não querem e atrapalham o processo. Há casos tão absurdos de adolescentes que se esforçam para aprender e que são ameaçados por seus pares justamente por causa disso, ou seja: ele vai à escola, mas não pode querer aprender, não pode ser bom aluno, não pode ser colaborador, nem tampouco respeitar o trabalho do professor.

Professor hoje se transformou num hipersemema: é pai, tio, filho, irmão, amigo, colega, aí mano, oi veio, psicólogo, médico, dentista, analista, oráculo, enfim, ele é tudo, menos professor. Se ele tentar levar conteúdos acadêmicos, será péssimo, será perseguido, injuriado, chamado de careca e de “branco”, se viver numa comunidade de maioria negra. Basta ver o vídeo. E a professora de artes que parece conseguir algo com os alunos, tornou-se psicóloga, pois tem de ceder sua cadeira para o aluno se sentar e aquietar-se na sala.

Os alunos hoje só fazem o que querem fazer, é a geração do aluno hedonista: se ele deixar, o professor ensina, se não, não. Se ele permitir, haverá aula de verdade, se não, ele jogará cartas, mexerá no celular...o professor nada poderá fazer porque a direção não tem força contra isso, o sistema é impotente, as leis não são cumpridas porque não há amparo para a escola.

Penso tristemente que o professor tornou-se uma marionete, e o pior, há vários que o comandam...mas ele segue, preso a cordas bem laçadas, mas segue. Trôpego mas segue; está amarrado, é verdade, mas ainda pensa e muito, só precisa ter uma chance real de libertação. Alguém tem alguma tesoura?

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O AMOR NOS TEMPOS DO ALZHEIMER

 
 



 

Ela chegou como uma criança, carregando o andador, reaprendendo velhos passos. Ele saiu de dentro ao seu encontro e os olhos marejaram. Águas milenares.


Minha mãe teve de permanecer em minha casa por alguns dias, Alzheimer e Fêmur quebrado eram algozes demais para mantê-la em sua casa. Meu pai ficou só, na casa vazia, olhando paredes e quadros coloridos cujas mãos plásticas ele bem conhece. 20 dias.

Depois das águas, diálogos antigos, promessas revividas, adolescência tardia. Ela não lembrava o nome dele, mas o que ela lhe disse a vida toda, saía de sua boca, de seus olhos, dos poros e das mãos trêmulas segurando o andador que quase foi ao chão por causa do olhar que ela não conseguia desviar. Foi impossível não lembrar Garcia Marques nas rugas e maduras peles encontrando-se na flacidez do tempo.

O amor não tem nenhum sentido... e eu fiquei pensando na força que esses velhos têm em minha vida e fiquei com tanto medo de perdê-los, ainda que eles não tenham sido tão presentes...o magnetismo do que viveram e vivem me arrasta.

Sei que não os terei por muito tempo, eu sei, só espero que, ainda que eu adoeça e minha memória se perca como a de minha mãe, que eu possa me lembrar do olhar que trocaram hoje à tarde e que eu ainda possa olhar para alguém também com a mesma magia ali transcendida.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

eco

                                             Quero escrever
mas estou rouca.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

BOLINHA DE PAPEL

Fazemos bolinhas de papel

Para descartar algum rascunho

De que não mais precisamos,

Para jogar fora algo que escrevemos

E de que não gostamos.

Para nos livrarmos de pensamentos ruins

De que desejamos

Libertação.



Fazemos bolinhas de papel

Para brincarmos, às vezes,

De batata quente,

Para passar o tempo,

Quando estamos doentes,

Quando nada temos pra fazer

Ou quando estamos muito ocupados

E erramos o que não se podia errar.



Fazemos bolinhas de papel

Pra escondermos mentiras

E verdades preciosas,

Para chamar a atenção de alguém

Que nos ignora

Pra ofender e pra agradar.



Não importa bem o motivo

Ela pode ser ignorada ou expressiva,

Inofensiva ou agressiva

O que ela carrega,

O que leva consigo em seu voo

Tem como destino algum lixo.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nossa Senhora Aparecida

Oração


Hoje é dia de Nossa Senhora Aparecida, nossa padroeira. Eu escrevo aqui um texto simples porque gostaria imensamente de agradecer à vida. Agradecer a presença dos meus filhos, do meu marido, dos meus pais já idosos, mas ainda aqui comigo. Dos meus irmãos, meus sobrinhos e sobrinhas, minhas cunhadas e cunhados e, sem demagogia, da minha sogra também, poxa!

Gostaria de agradecer minha saúde e a de minha família, meu trabalho, meus amigos e até mesmo aquelas pessoas com as quais é mais difícil de se conviver porque com elas exercitamos a paciência e nossa capacidade de conciliação e de amor.

Gostaria de agradecer, Nossa Senhora, por vivermos num país sem catástrofes latentes e, ainda que haja tantos erros políticos, temos lucidez para resolvê-los. Gostaria de agradecer por eu ter tido a oportunidade de viajar e conhecer outras culturas e poder ver nos olhos das pessoas a fé visível ou invisível que todos temos.

Mas, gostaria de pedir, Nossa Senhora, um favor muito especial. Como nossa padroeira e mãe, que a Senhora interceda junto a Deus para que o próximo governante deste país seja uma pessoa que tenha um olhar muito especial para a vida, que se importe com as pessoas e que não tire o pouco que foi dado, até agora, a quem mais necessita e que nada tinha.

Amém!

domingo, 26 de setembro de 2010

INUSITADO


Recebi este prêmio de um escritor incrível e um grande amigo. Autor do genial  http://ooficiodoocio.blogspot.com/  , deu-me a ideia de fazer este blog , incentivou-me quando eu lhe disse que talvez eu não tivesse tempo e agora me dá esse presente. Obrigada Jorge,
Jorge de Barros
mostrou-me atalhos
para o reencontro com palavras novas e velhas.
Ideias
e ócio necessário.

Sei que devo repassar o prêmio a mais dez blogs que sinto próximos, mas ainda sou blogueira iniciante, necessito observação e um tempinho a mais....Aguardem!

PAPO DE CRIANÇA

As meninas

Cecília Meireles



Arabela

abria a janela.

Carolina

erguia a cortina.

E Maria

olhava e sorria:

"Bom dia!"

Arabela

foi sempre a mais bela.

Carolina

a mais sábia menina.

E Maria

Apenas sorria:

"Bom dia!"

Pensaremos em cada menina

que vivia naquela janela;

uma que se chamava Arabela,

outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade

é Maria, Maria, Maria,

que dizia com voz de amizade:

"Bom dia!"



Três crianças (22/09/2010)

Luara enfeitava a tiara,

Mayra, tão cedo já lia,

E João brincava no chão:

Começava o dia!



Luara, a mais arteira,

Mayra, a mais crítica menina

E João se divertia:

Seguia o dia!



Pensemos em cada criança

Que naquela casa crescia,

Luara, sempre encantada,

Mayra, doce-arredia,

Mas um menino também brilhava,

Corria, cantava, nos divertia

E covinhas em suas bochechas surgiam

Toda vez que ele sorria!

Que saudade desses dias!

Mayra, Luara e João

Mayra

Clarice Lispector diz que “ser ruiva é uma revolta involuntária”. Mayra, minha filha ruiva, aos 4 anos de idade, após uma pequena discussão comigo, disse-me: ”Vou embora desta casa, vou vender sanduíche na praia”. Olhei sua mochilinha de viagem, estampada com a sereia ruiva Ariel: nela havia uma moeda, uma calcinha e uma boneca.

Aos 7 anos, quando eu estava amamentando o João, Mayra com os olhinhos curiosos me espiava a meia distância. Eu a chamei: “Mah, olha só a mãozinha do seu irmão. Veja os dedinhos que pequenininhos, que bonitinhos”. E ela, chegando mais perto: ”Mãe, ele tem cerca de trezentos ossos, quando ele for crescendo, os ossinhos vão juntando e aí diminui o número!” Eu perguntei onde ela havia ouvido aquilo: “Ué, no meu livro da escola, mãe!”

Pensei que ela seria médica, tão precisa, tão racional, mas ela escolheu ser professora. Bem, pensando melhor, não poderia ser diferente: era extremamente didática.

Luara

Aos 3 anos, quando eu estava grávida do João e todos perguntavam: “Será menino ou menina?” E ela, filosoficamente: “Ué, é só olhar, se for menina, vai nascer de lacinho!”

Aos 4 anos, meu irmão comentando a música da cantora Leila Pinheiro e ela corrigiu-o: ”Tio Jorginho, é Leila Pinheira, porque é mulher!”

Aos 7 anos, após ler uma placa de supermercado: “Mãe, eu sei que o frango não tá com gripe, mas o que é um frango resfriado?”

João

Aos 3 anos, na praia de Itanhaém: “Mãe, que é isso?” “É uma bolacha do mar!” “Pode comer?!!!????”

Aos 5 anos, quando colecionava dinossauros: “João, deixa esse dinossauro aí e vem comer um franguinho! Ou traga o seu amigo carnívoro pra almoçar com você”. “Mãe, esse dinossauro é um brontossauro, ele não come carne.”

Aos 7 anos: “Mãe, o que é um pontinho verde no canto da cozinha?” “Não sei!”

“Uma ervilha de castigo!”

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

DESCRIÇÃO

em constante construção...

Ela vive perdida em seus afazeres domésticos: de trabalho, de orgulho, de sexo, de medo. Corre de um lado para o outro, teria de ter um clone para resolver tantas coisas ao mesmo tempo. Enquanto dirige, atende celular, passa batom, máscara para cílios, lápis nos olhos nos sinais fechados. Não há tempo para se olhar por dentro.

Algumas vezes bate o carro, não por causa das ações costumeiras, mas por ver um outdoor bonito, ler um cartaz, olhar para o sol que está surgindo ou para a lua branca pintada no escuro. É assim, uma ligada-desligada. No trabalho, oscila entre risos e desgastes, telefones e folhas, cafés e cigarros.

Em casa é vinho e cerveja, água e óleo na panela e as cebolas cortadas, desculpas pelos sonhos atirados nos vãos do tempo. O que pode fazer? Mudar de vida? E coragem para isso? Não tem. Muitas coisas em jogo: pai, filho e espírito santo: amém. Não pode. Também, já se sente meio velha, sei lá, começar de novo no meio do caminho??? Difícil, não é? Ou, difícil não é?

Segue. Lê, lê, corre de novo, lá e cá. Emociona-se vez ou outra com bobagens sem sentido e música boa lhe arrepia. Às vezes, excita-se com o vento, meio Macabéa, devota fiel e ateia. Mas não quer epifania com sangue escorrendo, isso, não. A não ser que um vampiro muito lindo voe até sua janela, estoure as grades e a seduza sem pressa, bebendo-a gota a gota. Nem sentirá remorso pela traição do pensamento recorrente.

É assim todo dia. Críticos radicais dizem que a Bethânia desafina, e daí? Gosta de ouvir a voz inconfundível “o meu corpo é uma fogueira, enquanto ele dorme pesado, eu rolo sozinha na esteira”, ou Edu Lobo “saiba que os poetas, como os cegos, podem ver na escuridão”, ou Leo Gandelman (o som do sax, ai, o som do sax!). Música mata a fome, a sede, faz suar e refresca. Esquece a panela no fogo, tem de jogar fora o feijão.

Beija seu cão, abraça-o, é um cão suave, manso, macio. Entende o que ela sente, o olhar dele revela.

Ela segue em seu dia descrito, pálido, aflito...Até que pega uma folha e o reescreve em preto no relento do seu branco vadio.

sábado, 18 de setembro de 2010

Obscenidades na sala de aula?


Nós, professores, de um modo geral, vivemos pedindo aos alunos para guardarem dentro das mochilas as Larissas Riquelmes, as mulheres melancias e melões estampadas por aí, mas esta semana aconteceu algo muito inusitado: o governo estadual ofereceu três obras literárias aos alunos e uma delas com um conto bastante picante de Inácio de Loyola Brandão: Obscenidades para uma dona de casa. Uma capa nua para adolescentes entre 16 e 18 anos: 40 alunos abrindo o livro Os Cem Melhores Contos na página 471 para lerem deliciosas lascívias que ocultam o lirismo latente do escritor.

Infelizmente não foi pela poesia de Loyola que os alunos se alvoroçaram, mas pelas palavras de ordem que ele inseriu em seu texto para contar a história de uma dona de casa perdida entre a vida pacata com um marido metódico e viciado em meias perfeitas e bem dobradas e os desejos mais intrínsicos que ela tenta ocultar de sua própria imaginação; uma mulher tentando reinventar a vida para reinventar-se também. Entre “cacetes e bundinhas”, há a história de alguém que, como tantas mulheres, vive presa a conceitos estabelecidos e julgamentos preconceituosos.

O mais estranho foi ver o tom de desprezo dos alunos. Quem diria....eles chegaram a dizer que o texto era pornográfico, onde já se viu, professora! É, vivemos num país moralista às avessas. Constantemente, há mulheres nuas, siliconadas ou não, dançando na tela da tevê a qualquer hora do dia ou da noite. Deparamo-nos insistentemente com revistas pornôs estampadas nas bancas e outras nem pornôs, mas cujos títulos de reportagens sugerem a luxúria a toda prova. Sem contar as letras de incontáveis funks e raps que se ouvem ao máximo volume passando por rádios de alguns carros ou em bailes por aí.

E, de repente, Inácio de Loyola transforma-se em autor pornô (pelo menos, foi isso que os alunos disseram). Bem, bem... talvez aquela história de que "uma imagem vale mais do que mil palavras" caia por terra quando a palavra é bem escrita e incisiva. As palavras realmente ganham uma força incomensurável quando lapidadas por um grande artesão.

Pedi para que lessem o texto em casa, com calma, que tentassem se colocar no lugar da personagem, imaginei que assim, talvez, eles pudessem enxergar a angústia ao redor da vida dela. Foi pior. A pobre personagem foi tachada de sem-vergonha, * #+»×~///? "°¨¨#... “onde já se viu uma mulher casada fazer isso”. É, vivemos num país moralista e de uma falsidade que transcende a ficção. Bem...é verdade que também há poucos conhecedores de arte e de artesãos.

O jeito é torcer para que haja cada vez menos homens viciados em meias bem dobradas e sem furos. Ou a mulher terá suas cartas imaginadas confiscadas pelos próprios sonhos e nem o melhor artesão de palavras conseguirá fazer com que esta mulher possa ser compreendida.





quarta-feira, 25 de agosto de 2010

SER PROFESSOR, VALE A PENA?


SER PROFESSOR, VALE A PENA?
Ás vezes, quando me levanto cedo para dar aulas, bate-me um desânimo, fico pensando que irei falar, falar e, dos mais de quarenta alunos da sala, apenas uns seis ou sete irão ouvir-me de verdade. Muitos ficam com os olhos quase se fechando, talvez porque a internet tenha-lhes roubado o sono; outros, presos ao seu próprio mundo, ficam rabiscando desenhos, escrevendo bilhetes, fazendo desenhos da gente, pobres professores que ainda sonham...
Às vezes, sinto uma vontade imensa de mudar de profissão, de buscar uma maior valorização financeira e pessoal, talvez cantar na noite – algo de que sempre gostei- mas, aí, lembro que não sei interpretar pagode, nem pop, nem sertaneja, nem nada de que as pessoas gostam, lembro-me de que sou esquisita para esse tempo, de que gosto de bossa nova, de MPB que me acode os olhos e os ouvidos e aí...morreria de fome se vivesse de música.
Às vezes, vejo-me uma mulher vendendo algo colorido para deixar as outras mulheres mais felizes e penso que não teria capacidade de acumular lucros aproveitando-me de amigos ou até mesmo de desconhecidos.
Então, vou à escola e tento pensar que, neste dia, algo de melhor irá acontecer, que os alunos estarão atentos, com sede de saber, com desejo de conhecimento. Que, como num passe de mágicas, eles descobrissem que saber sobre Fernando Pessoa é mais prazeroso que beijar um monte de meninas na hora do intervalo, ou que aprender a ler uma imagem desperta-lhes ainda mais a sensibilidade. E, de repente, um aluno e uma aluna muito especiais apresentam-me um trabalho sobre Vidas Secas. Um trabalho que denotou pesquisa, vontade, empenho e sensibilidade, um trabalho que “acordou” não só a sala desses alunos, mas a sala vizinha também, que entusiasmou, emocionou e fez-me ver como é bom ser o que sou, como é bom levantar-me cedo e poder ver que, com um simples gesto de pedir para ler um livro e realizar um trabalho de apresentação oral, levei a alguém a possibilidade de que exercitasse o seu poder de sedução pela sabedoria, pela simpatia e, principalmente, que mostrasse a todos o seu desejo de aprender e de conhecer o mundo. Alunos que fizeram das secas vidas retratadas por Graciliano momentos de compreensão e de poesia. Obrigada Objámerson, obrigada Vanessa! Vocês me deram a certeza de que, apesar de quase estar aposentando-me da escola pública, tudo, absolutamente tudo valeu a pena!

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

PÉ QUEBRADO

Pé quebrado


Quando se é inquieto

E não se consegue fazer parar,

A vida dá um jeito,

Faz o pé quebrar.

Aí, a cabeça,

Que estava tão cheia de afazeres,

Relaxa, sente,

Acalma, se aquieta

E o movimento inquietante

que os pés seguiam

passa a ser pensamentos,

lembranças

e planos

para essa minha vida

em que tudo

acontece de repente.

13/08/2010

domingo, 8 de agosto de 2010

80 anos do velho Jorge

Ribeirão Preto, 11 de agosto de 2009         
Há um ano...                                         
Pai,
Hoje de manhã fiquei pensando em muitas coisas...e lembrei-me de uma cadeirinha de balanço que o senhor me trouxe de viagem quando eu fiz 4 anos; lembrei-me de quando tive nefrite e que o senhor me trouxe uma cesta cheinha de doces quando sarei e finalmente podia comer alguma coisa gostosa; lembrei-me do meu primeiro banho de rio, no Rio Pardo e o senhor estava lá comigo...

Lembrei-me do senhor, sentado no chão, diante da mesinha da sala, na casa na Anita Garibaldi, ensinando-me a jogar buraco...lembrei-me do senhor ajudando-me a subir na Caloi 10 do Lélio que eu pegava escondida, e o senhor me ajudando a me equilibrar e a andar na bicicleta...lembrei-me do senhor me ensinando a acelerar a primeira moto que eu comprei e eu nem sabia andar; do senhor me explicando para sentar bem na frente do banco, um dia, em que o pneu traseiro da moto furou e eu o levei para consertar...lembrei-me do senhor, dirigindo seu velho carro, sempre com algo quebrado e me mostrando como mudava a marcha e pisava a embreagem.

Depois, lembrei-me do senhor no altar, no dia do meu casamento, o senhor estava tão emocionado que tive medo do seu coração novamente falhar...lembrei-me do senhor indo à minha casa, montar meu guarda-roupas...até de uma surra que o senhor me deu eu me lembrei, mas sem mágoas...era a linguagem que conhecia.

Lembrei que o senhor chamava a Mayra de “fuça-fuça” quando ela era pequenininha e de que o senhor sempre se emociona com música e pequenas coisas e lembranças....

Eu te amo, pai, muito, porque tudo o que o senhor me ensinou era para que eu fosse feliz, para eu me aventurar. O senhor me ensinou a me divertir, a rir, a ser feliz e...sabe por quê? Porque hoje, apesar de o senhor estar completando 80 anos, nunca deixou que se apagasse dentro de si o menino que sempre existiu e que - apesar do trabalho desde pequeno, apesar de andar quilômetros descalço para ir à escola - brincava, divertia-se e aprendia na fazenda Invernada.

É esse menino sempre vivo que deixa a gente tão feliz.

Um beijo da sua filha

Cláudia

domingo, 25 de julho de 2010

MEMÓRIA FOTOGRÁFICA




Estávamos conversando, meu pai e eu, lembrando muitos fatos. Tomei coragem e perguntei-lhe, finalmente, por que não havia nenhuma foto do casamento dele com minha mãe, juntos há mais de 57 anos. Meu pai é desses velhos que têm uma memória invejável, um assunto se une a outro numa grande cadeia ora harmoniosa, ora cheia de ziguezagues que nos deixam tontos, já que, muitas vezes, o “narrador” perde-se entre verdades e mentiras que ele inventa só para dar mais ênfase àquilo que ele quer ressaltar nos velhos casos dos seus mais de 80 anos de vida.

Sua resposta foi breve, o que me surpreendeu.. Naquele tempo, não era fácil ter dinheiro para se pagar um álbum, assim, quando o fotógrafo foi mostrar as fotos da união que teve boleros e tangos na sala e na cozinha durante muitas décadas, naquele momento, ele não tinha dinheiro para pagá-las e assim, o casamento seguiu sem uma única foto de recordação do tão sonhado momento de tantas jovens dos anos 50.

Senti que ele contou-me isso com um certo nó na garganta e que, se pudesse voltar no tempo, teria feito alguma coisa para ter conseguido ficar, pelo menos, com uma mísera foto preto e branco e que, hoje, estaria certamente amarelada. Ele foi contando-me os detalhes da cerimônia, o cartório, a igreja, o que o padre disse e o beijo no altar que minha mãe esqueceu-se de dar...e tudo foi-se desenhando diante dos meus olhos. Meu pai olhava meio de lado para minha mãe, sentada passivamente na poltrona ao lado, perdida no seu mundo de esquecimento e fuga. Percebi os olhos dele e os meus marejaram também.

Penso que o que passou pela mente dele é que, talvez uma foto de casamento pudesse fazer com que minha mãe retomasse o que ela foi um dia, lembrasse de sua vida, de quem era e conseguisse colorir a foto amarelada que só passou pelos olhos do meu pai e de minha mãe por alguns instantes, uma foto de vida breve, tão breve como a memória relâmpago que minha mãe hoje nos delineia.

Não, meu pai, nem mesmo a ilusão da foto amarelada mudaria a verdade que nos é fotografada a cada dia.

25/07/2010

sexta-feira, 16 de julho de 2010

NO TEMPO CERTO




“Tempo, tempo, tempo”, o grande algoz. Rouba-nos a vida a cada segundo e ao mesmo tempo, entrega-nos a aventuras e a aprendizados; alguns, prazerosos, outros amargos e incorrigíveis. Não, pensando melhor, não é um algoz: é um paradoxo. Neste exato momento, vivemos o presente e, metalinguisticamente, na linha debaixo, neste texto, o presente faz-se passado e foi futuro na linha anterior.

Viver esse paradoxo é a grande aventura e a oportunidade de fazermos dessa aventura não uma conquista pessoal, mas uma mudança de paradigma. Ainda que pareça um clichê de auto-ajuda, há que pensar no que vivemos para que saibamos nos posicionar neste presente que já foi futuro. É necessário presenciar esse presente e tentar fazê-lo acontecer da melhor maneira, provável ou improvável: amar, viver, ajudar, correr, brigar, perder, vencer, cair, seguir; e nesse seguir, cuidar para que o futuro não chegue como se fora um deus resoluto de todas as nossas angústias daquele presente. O futuro chega ligeiro, tão presente que nem percebemos e o que traz na bagagem é a poeira do que fizemos ou resquícios do que deixamos de fazer.

Temos de viver esse futuro- presente e nele tentar realizar a vida da maneira mais coletiva, já que o tempo é de todos e para todos. Assim, quando o presente for futuro, as novas gerações, que hoje ainda não podem avaliá-lo como presente, poderão sentir que cuidamos dele no tempo certo.



terça-feira, 13 de julho de 2010

Pequenos poemas incidentais

Eclipse

Lua branca,

Leve lua.

Lua bela,

Nua lua.

É travessa,

Tão menina!

Brinca de esconde-esconde

Na sombra da Terra.

16/08/89


Arrumação

Papéis trazem lembranças

Antigas, mas que parecem

Estar aqui, agora.

É engraçado

Como o tempo brinca com a gente

O ontem parece tão perto,

Tão perto...

Papéis trazem pessoas

Que se desenham,

Se moldam,

Nos fazem rir

E chorar...

E aí, molhamos o papel.

05/09/2002

sexta-feira, 9 de julho de 2010

El vuelo


Creo que es hambre
Lo que mi alma y cuerpo
Sienten
Cuando recuerdan tus ojos
Y tu sonrisa,
Y tu tiempo. 

sexta-feira, 2 de julho de 2010

BRASIL X HOLANDA


Meu filho não desgrudava os olhos da tela. Deliciava-se com os dribles de Robinho e as tentativas de Kaká. Eu irritava-me com a ausência nada fabulosa de Luiz Fabiano que, não sei por que, gratuitamente nunca me convenceu, tem cara de paranoico, sei lá (desculpe-me a franqueza). Lembra-me os alunos sonsos que esperam alguém terminar para passarem a cola, só para que nem tenham o trabalho de pensar.

O gol no primeiro tempo deu uma sensação de alívio – muito parecido com a que me dá quando tenho a impressão de que o PSDB finalmente não vai continuar no governo estadual de São Paulo. Minha nossa, os alunos vão para a escola pública por mil motivos, menos para estudar. E os que querem aprender são sufocados, como bons atacantes que não têm espaço para avançarem porque a defesa do time adversário é pipoqueira e o pior... muito cruel.

O jogo segue bonito, jabulani parece que já foi dominada, não é mais o animal selvagem na arena da África. Foi domesticada pelos pés de 32 países diferentes. Coitada, não tinha escolha. E hoje camisas laranja ardentes e azuis tentam conduzi-la à rede fatal.

Segundo tempo, meu filho se desespera, os olhos adolescentes e esperançosos marejam ao término do segundo gol alaranjado. Se ele pudesse, teclaria o controle remoto do tempo só para continuar tendo a alegria momentânea de noventa minutos quando se ganha e se esquece de tudo ao redor. A filha mais velha é supersticiosa, a do meio faz promessa. O marido sai da sala, sem rumo, feito uma jabulani desgovernada: vuvuzelas mudas aos meus ouvidos. Só minha cachorra daschund parece indiferente, talvez torça amanhã para a Alemanha.

Que coisa louca é o futebol! Choro, decepção...a vida é cheia disso e eu sinceramente espero que no meu tempo regulamentar ou até mesmo no tempo de acréscimo neste jogo inusitado de viver, possa ver meus filhos e aqueles meninos, atacantes insistentes na sala de aula, driblando a defesa adversária pipoqueira e oportunista e marcando muitos gols, seja em qual campo for, desde que seja um jogo limpo, com a garra e a vontade de quem não briga à toa, mas também não abaixa a cabeça. A vida tem muitos jogos. Vamos a eles. 02/07/2010





quinta-feira, 1 de julho de 2010

JARDIM FLORESCENDO...

Jardim florescendo...

Manacá-da-serra- sm (tupi manaká) Bot Nome dado a vários arbustos ou pequenas árvores, da família das Solanáceas, particularmente às espécies Brunfelsia hoopeana e B. australis. Suas flores, geralmente solitárias, são violáceas ou roxas, quando novas, mas com o passar das horas adquirem um róseo desmaiado e, finalmente, passam ao branco, o que torna a planta curiosamente ornamental e por isso muito cultivada em jardins (Michaelis- Moderno Dicionário Online)


Meu manacá-da-serra que plantei na semana passada deu flores. Que lindo! Algumas miudinhas, brancas, meio arroxeadas, outras mais escuras, mais roxas, mais vivas. Em princípio, parecia que ele não vingaria, estava murchinho e sem graça no canto da floreira, mas agora está viçoso e feliz.

Eu não sabia se a terra estava bem preparada, se eu a havia tratado como deveria antes que recebesse o manacá. Não sabia se o espaço era suficiente, se haveria luz, calor e sombra adequados, se eu conseguiria ter tempo para olhar para ele, vê-lo crescer, retirar dele as formigas intrusas que porventura pudessem querer machucá-lo ou ainda apreciar uma borboleta ou um beija-flor que nele quisesse pousar. Mas ele está crescendo...

Está tão bonito e eu espero poder olhar para ele todos os dias, ainda que seja apenas por alguns segundos, mas que ele perceba que a vida que nele brota é a mesma que eu desejo que, a cada dia, brote também dentro de mim, mesmo que haja chuva intensa ou sol escaldante. E, caso alguém tente arrancá-lo de lá à força, que ele se enraíze ainda mais e que, assim, arraigado à terra, possa fortalecer-se ainda mais.

Eu nunca havia plantado um manacá... e ele está tão bonito. Pode ser que seja uma estupidez  importar-me com isso, parece uma dessas pequenas bobagens que nos encantam e que ninguém entende, mas eu o plantei com o coração, acho que foi por isso, e na sua raiz ele carrega um pouco da muita vontade que tenho de viver. 30/06/2010





terça-feira, 29 de junho de 2010

Aterrissagem



                                                                           Lembrando "No aeroporto" de Drummond

_Você é a minha mãe! É assim que ela me diz toda vez, na hora do banho. Olha-me sorrindo, com o sorriso vazado pela ausência de uns dentes e o incrível olhar de quem ainda tem muito para descobrir nesta vida.

_ Eu vim dar banho em você, linda.

Vou tirando-lhe as peças de roupa com cuidado, a fralda está limpinha ainda. Banho seu corpo branquinho, a pele macia e molinha, os cabelos curtinhos. _Cuidado com minha orelha, meu brinco, dói. Vou assim banhando-a devagar, com o chuveirinho sobre sua pele e olhando-a com paixão. Ela reaprende a banhar-se a cada dia, como se nunca fizera isso antes. Paciência. Ajudo-a para que lave os braços, o pescoço, a barriga branquinha, tudo enfim....sempre do mesmo jeito, no mesmo ritmo. Quando fecho o chuveiro, ela _ Que delícia, que banho gostoso! Você é tão bonita! Eu te amo! Você é a minha mãe! E eu sempre respondo ao seu carinho despercebido:_Você que é a coisa mais linda do mundo! Eu também te amo, viu?

Passar a toalha sobre seu corpo faz com ela se arrepie e, por ser branquinha demais, algumas vezes, os olhos ficam avermelhados por causa da água ou do xampu. Em alguns dias ela fica brava comigo, grita; em outros, fica sorrindo e repetindo:_Eu te amo, você é a minha mãe!

Quando visto suas roupas também é bem devagar, ela apóia a pequena mão na parede e eu acomodo em seu corpo pequeno e miúdo algumas peças leves para que ela fique confortável e feliz. Ela é tão pequenininha, não é à toa que ganhou o apelido de pinguinho, dado pelo meu pai.

_Ela fez tanta arte hoje, virou os porta-retratos de ponta cabeça, jogou restos de comida na pia, escondeu a chave do portão, xingou o entregador de gás. Ela anda muito arteira- disse-me meu pai quando cheguei. Meu pai cuida dela a maior parte do dia. Apelidou-a de pinguinho logo que se casaram.

Hoje ela está com uma das demências que acometem as pessoas idosas que às vezes trabalharam uma vida toda e ficamos meio sem compreender por que isso tudo acontece. Ela é tão linda. Ela é a minha mãe. 29/06/2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Avesso mudo mundo









Visionários!!!!!!Neste blog há mentiras e verdades, literais e literárias. Eu já comecei a contar as minhas, conte-nos a sua!






Amém


Ontem, fim de semana, resolvi fazer o que o cardiologista ordenou-me incisivamente e caminhei um pouco. Realmente é muito bom caminhar, como diz a crônica de Antônio Prata utilizada pela UNESP deste ano. Acredito que, se estivermos sozinhos, principalmente e, sem fones de ouvido, driblando qualquer distração paralela, a atividade pode ser ainda mais instrutiva e prazerosa.

Eu caminhava e pensava em tudo e em nada ao mesmo tempo quando vi um grupo de jogadores de futebol num canto, em círculo, falando baixinho, concentrando-se antes da entrada em um campo de pouca grama e muita terra. Da fala quase murmurada, começaram, de repente, a rezar “Pai-nosso, que estais no céu/santificado seja o vosso nome/venha a nós o vosso reino/seja feita a vossa vontade/....”. O tom alto e ritmado de uma grotesca marcha militar levou-me a pensar se Deus realmente gostaria de ouvir a canônica prece naquele tom retumbante e martelado. Ao voltar a atenção para mim, percebi-me, também, num passo aqui e outro ali, ritmando a prece no tom que meus pés solavam.

Acelerei o passo imaginando se, no Rio de Janeiro ou em São Paulo, quando o poder paralelo executa alguém, no alto do morro, fazem-no rezando em algum ritmo por eles apreciado. Como será que eles transformariam a passagem “não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal?” Não seria de admirar que isso ocorresse, já que, tudo, até as maiores atrocidades, neste país católico, é feito em nome de Deus. Políticos desviam verbas e depois falam em nome de Deus. É possível que, ao depositarem em suas contas clandestinas, imaginem que estejam fazendo algum tipo de caridade. Pobres ou milionários jogadores de futebol intitulam-se atletas de Cristo. Será que, vestidos com camisas da Nike, Olympikus ou calçando uma chuteira Adidas, auxiliam-No a carregar a cruz em menos tempo durante o percurso do calvário?

Tudo, absolutamente tudo se transforma em motivos para se referir a Deus. Se um gol aconteceu, foi Deus, se bateu na trave: Deus não quis. Coitado de Deus, vai ver que é por isso que não lhe sobra tempo para cuidar de tantas questões que andam esquecidas aos olhos humanos: talvez os verdadeiros necessitados não saibam rezar e por isso, Deus só consegue ouvir os lamentos que as lentes midiáticas mostram. Vai ver é isso. Não posso acreditar que Deus também tenha sido fisgado pelas notícias focadas aqui e ali e sua visão também tenha sofrido alterações e Ele não possa mais fugir à rede, não possa mais ver o que não se divulga.

Eu não sei, mas durante a caminhada, ouvindo a marcha da oração daqueles jogadores, pensei em minha própria fé. Em que acredito de verdade? E imaginei um Deus cansado e não mais decepcionado, pois não há mais nada a surpreender e a causar novas decepções. Concebi um Deus irônico, rindo de nossa ignorância em pensar que sairemos incólumes a tudo, desde que façamos tudo como se fosse em nome Dele, que Ele constata que somos tão incrivelmente hipócritas que pensamos que o enganamos.

Ai. Virei o pé. Dói, que droga! Bom, dá para continuar caminhando mais devagar, deve ter sido só uma pequena torção, graças a Deus!

27/06/2010





sábado, 26 de junho de 2010

El Gitano

Texto publicado no Jornal Marcapasos de Cursos Internacionales de la Universidad de Salamanca, ES, julio/2005


El Gitano


La Plaza Mayor se quedó pequeña en aquella tarde. Todas las tiendas se cerraron, todas las personas se evaporaron delante de una única mirada: los ojos fijos ya no veían a nadie. ¿Quién podría ser aquél gitano? ¿Qué estaría él haciendo por aquí? No sé nada de él. Acaso pudo haber sido un día el hombre de mi vida y quién sabe, hubiéramos bailado por las calles en las noches en que la luna no vería nosotros. ¿Habríamos tenido hijos o la luna no lo hubiera consentido?
Sus ojos no se despegaban de los míos y todo alrededor ya no importaba, ni las personas que como fantasmas flotaban cuando pasaban por delante de nosotros.
¿Estaría él sintiendo lo mismo que yo? EI deseo de no salir de sus ojos…
Alguien me llama, lejos… me vuelvo para ver quién es y cuando me vuelvo otra vez, no encuentro los ojos profundos que me miraban.
La Plaza Mayor era, ahora, un mar.

Campo

Campo




Rola jabulani


Desgovernada,

Falsa África,

Tão bonita na tela

E fora dela,

Fome, miséria.

Rola jabulani,

Vesga e tonta,

Talvez nem se dê conta,

Nem com toda vuvuzela

De que ela mascara

A dor, o frio.

Vai, desvela!

Atravessa o estádio,

A África do Sul,

E para nas valas

Onde negros amontoados em Luanda

Lutaram pela libertação

Que nunca existiu.

Rola jabulani,

Seu caminho é sonhado

Por tantos negros pobres, suados

Dessa subsaariana

E mutilada

Fábrica de injustiças.

Rola e deixa que eles sonhem

Com um campo sem Aids,

Repleto de água e de comida,

Rola e deixa

Que esse continente fêmea,

Que essa África,

Confundida com um país,

Tão invadida, tão ferida

Sonhe, ao menos, agora,

Com a vida.
26/06/2010

quinta-feira, 24 de junho de 2010

JARDIM




Jardim

pensando em Cecília Meireles


Hoje fiz um jardim. Não é um jardim grande, sofisticado, não. É uma floreira quase, pequena, que enchi de terra vermelha e preparada com uma porção de raminhos verdes de que as plantas precisam para crescerem bonitas e viçosas. Tive de socar a terra, com força e com a ponta de uma faca, mas, ainda que parecesse um movimento violento, não tive a intenção. Pensei que tudo que se faz com carinho e com amor fica bonito. Parece piegas, mas é a pura verdade. Não é a mão que tem de ser boa, é o coração, disse-me a Roseli. Por isso, soquei a terra com o coração e plantei as mudas com o coração e amaciei a terra e deixei-a lisinha ao redor das plantas, com o coração. E joguei os cascalhos ao redor das plantas com o coração. E reguei-as depois, com uma água gostosa que também caía nos meus pés, deixando no chão a terra que os cobria, e tudo com o coração.

Fiquei lembrando-me da frase dessa minha amiga, a Roseli. Eu a conheço há tanto tempo e, quando ela e a Valéria vêm a minha casa, deixam-me mais leve. Não somente porque elas me auxiliam nos afazeres, mas porque são alegres, elas fazem as coisas com o coração.

Deve haver muitas roselis e valerias pelas ruas, aquelas pessoas que, apesar da vida doída e dura, fazem as coisas com o coração: auxiliam alguém a encontrar um endereço, sorriem para um desconhecido depressivo (porque o coração nos conduz a descobrir essas pessoas em meio a tantas outras), acariciam um cão perdido e dão pequenas moedas aos mendigos, mesmo sabendo que alguns nem farão bom uso delas. Mas fazem com o coração.

Eu não sei ao certo se, no decorrer de minha vida, tenho feito coisas com o coração, mas acredito que sim, porque mesmo quando eu tenho de parecer cruel e mexer a terra com força, ainda que eu derrube uma ou outra muda fora do canteiro, embora alguns cascalhos façam barulho e caiam das minhas mãos, tenho plantas ao meu redor. Algumas têm espinhos terríveis que, quando nos atingem, machucam e sangramos por alguns dias, até que a pele se renove. Outras são coloridas e viçosas e soam suaves ao menor vento. Umas, são enormes e deselegantes, mas fazem a sombra necessária para as que delas precisam. Outras ainda são pequeninas, mas encantam e perfumam incondicionalmente a grama do jardim.

Hoje eu fiz um pequeno jardim. Não sei se a leveza que sinto é paz ou cansaço, mas estou flutuando, com as penas bambas, soltas, os braços adormecidos: uma folha em voo livre.

Sei que vou dormir mais feliz. Naquele espaço em que havia um vão seco, triste e sem vida, hoje tem um jardim. 23/06/2010

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Diário de bordo

Texto publicado pela Cenp sobre o Projeto Viagem à Espanha
Salamanca-ES, 16/07/2005

Estou aqui há treze dias e, da janela da Residência Morales, vejo as catedrais de Salamanca - a catedral antiga e a nova - união de tempos. Os sinos badalam. O tempo brinca conosco, viajantes inversos que buscam na Idade Média respostas para sonhos adormecidos. A língua lá fora, forte, ardente, “ronca” seus erres, rudes, risonhos ... Salamanca. Será que estou sonhando? Como poderia imaginar atravessar o oceano, o tempo... E estou aqui há treze dias... As ruas chamam para o conhecer, o caminhar ... casas, igrejas, espaços de outro tempo, para mim, tão novo. “Vengan, vamos!”. Não há como não ir, mas, são 7 da manhã e preciso correr para a excursão: Leon e Zamora. São três horas até Leon, mas chegamos. A catedral é maravilhosa. Os sinos também badalam por aqui e os vitrais coloridos são espelhos vivos de um tempo ... século XIII. Tento conjugar indicativos e subjuntivos castelhanos para conversar no ônibus com norteamericanos, alemães, dinamarqueses, assim, aproveito o tempo também para estudar os tempos ... o temp ... o tem... o t... Pelo vidro do ônibus vejo meu rosto, corado pelo sol ardente e caloroso que a Espanha nos oferece, e penso no brilho que tudo isso está proporcionando em minha vida. Chegamos a Zamora. A catedral não tem os vitrais mágicos da de Leon, mas é uma pérola do século XII. O guia nos lembra do mito de El Cid e viajo para a década de 60 do ano 1000. O tempo ... tão inexorável quando penso que falta pouco para voltar e tão estático quando relembro meus filhos, longe ... neste tempo.
São 20 horas e o sol ainda ilumina o caminho. Penso no brilho intenso dos vitrais da catedral de Leon, no dourado que vejo da minha janela da Morales. Sei que esse brilho reluzirá toda a magnitude dessa Espanha mágica transcendida no tempo e no espaço. Ela segue em minhas veias, vermelha e ardente até que o tempo já não possa mais brincar.
Claudia Maria Cantarella Silva
Diretoria Regional de Ribeirão Preto-SP

“BUSCA”: um conto poético no “feroz realismo” de João Antônio


Capítulo do livro Vale a escrita? Criação e crítica na contemporaneidade, publicado pela UFES, Vitória, 2003, p.p.157-168


“A poesia não se confunde com o verso. (...) Pode haver poesia em prosa e poesia em verso livre. (...) Sabemos inclusive que ela não se contém apenas nos chamados gêneros poéticos, mas pode estar autenticamente presente na prosa de ficção.” (Antonio Candido[i])

No final da década de 70, enquanto João Antônio percorria as “árduas” trilhas, próprias do caminho literário, retratando os viradores e malandros da vida noturna e, já era considerado por Antônio Cândido como uma dos maiores representantes do chamado “realismo feroz” [ii], eu era uma adolescente que imaginava, na noite e nos rostos magros que a habitam, um delirante fascínio. Porém, vivendo uma realidade totalmente adversa ao mundo marginal, as madrugadas correspondiam apenas ao meu universo de aspirações. Por isso, falar de João Antônio é, particularmente, uma tarefa muito especial. Quando as madrugadas me chamavam e eu não podia atender ao seu convite, descobri Malagueta, Perus e Bacanaço na pequena, mas significativa biblioteca que meu irmão mais velho degustava. Peguei-o sem compromisso e o mergulho nas madrugadas malandras preencheu minhas aspirações tão ansiosas. Afoguei-me naquele mundo desconhecido e narrado de maneira tão singular que me intrigava. Não imaginava que textos tão incisivos pudessem ter tanto lirismo. A vida seguiu seu curso e, um dia, ao trabalhar a literatura em uma aula, apresentei João Antônio aos alunos de um terceiro ano do Ensino Médio e revivi,mesmo após alguns anos, a sedução de seus textos. As bolas de sinuca rolavam no pano verde...As madrugadas insistiam no convite para a aventura, para a reflexão, para a poesia...
Sem dúvida, a poesia navega nas veias marginais dos contos de João Antônio e neles marca, indubitavelmente, sua presença. Não podemos deixar de considerar relevante o fato de estarmos falando de contos. Nádia Battela Gotlib[iii] lembra-nos do estudo de Edgar Alan Poe sobre a unidade de efeito. No estudo de Poe, verifica-se que o escritor aplica ao conto as mesmas propostas de leitura e de teoria aplicadas ao poema. O conto, por ser uma história cuja leitura se realiza “de uma só sentada”, aproxima-se do poema que “induz a uma exaltação da alma que não pode ser sustentada por muito tempo”.
Diferentemente do romance, no conto “o autor é capaz de realizar a plenitude de sua intenção, seja ela qual for. Durante a hora da leitura atenta, a alma do leitor está sob o controle do escritor”[iv].
Privilegiando a unidade de efeito, o conto se aproxima mais da poesia do que da prosa, pois a eficácia e o sentido do conto “dependem destes valores que dão um caráter específico ao poema e também ao jazz: a tensão, o ritmo, a pulsação interna, o imprevisto dentro dos parâmetros pré-vistos, essa liberdade fatal que não admite alteração sem uma perda irreparável”.[v]
Paul Valéry[vi] nos ilumina ao dizer que a narrativa é como uma marcha e a poesia, “arte da linguagem”, é como uma dança. E dançar é repetir passos, pois cada repetição traz aos passos nova leveza ou novo “ataque”. A escrita de João Antônio é marcada por movimentos que se repetem à semelhança da dança. A recorrência de temas, de estruturas, de palavras, de figuras em sua escrita caracterizam a poética de sua narrativa. Assim, a poesia não é avessa ao “realismo feroz” e João Antônio a introduz e a eterniza em muitos dos seus contos, como por exemplo, “Malagueta, Perus e Bacanaço”, “Frio”, “Paulinho Perna Torta”, entre outros, em que a rua compõe o espaço percorrido pelo narrador poético.
Para melhor mostrarmos o modo poético e singular de narrar do autor, lançamos mão de algumas observações de Jean-Yves Tadié[vii] sobre a narrativa poética e escolhemos, para análise, o texto “Busca”, o primeiro da premiada coletânea Malagueta, Perus e Bacanaço, um conto ímpar em que a poesia salta aos olhos. Embora não narre a vida dos tão conhecidos viradores e malandros noturnos, “Busca” tem Vicente como personagem-narrador, um homem que, apesar de não avesso ao dia e vivenciar as madrugadas, também sente-se avesso, desencontrado no mundo em que vive. Trabalha como soldador, vive com a mãe, aparentemente uma dona de casa e, num início de tarde de domingo, sai para caminhar, sem rumo, em busca de algo que nem mesmo ele sabe definir. Durante a caminhada, ele relembra fatos de sua infância, começa a pensar em seus primeiros fios de cabelos brancos e percebe que os sonhos por ele almejados, movidos pelo destino, escaparam-lhe. Sendo Vicente personagem-narrador, o conto apresenta uma “visão com”: “É ‘com’ ela [personagem] que vemos as outras, é ‘com’ ela que vivemos os acontecimentos contados. Sem dúvida que não deixamos de ver o que se passa nela, mas somente na medida em que o que se passa em alguém aparece a esse alguém”.[viii]
A focalização escolhida pelo autor nos permite “caminhar” com a personagem, não só pelas ruas, como também em meio a suas lembranças. Enquanto Vicente caminha, as lembranças do passado vão surgindo por meio de retrospecções. À medida que isso ocorre, o personagem-narrador vai nos explicando sua história. Assim, a ordem do discurso não coincide com a dos acontecimentos ocorridos na diegese, caracterizando “Busca” como um conto de atmosfera - terminologia utilizada por vários teóricos sobre o conto, inclusive por Nádia B.Gotlib[ix] para caracterizar o conto cuja ordem do discurso é privilegiada pelo ir-e-vir do monólogo interior de uma ou demais personagens.
Apesar de não ser longo, o conto é separado por asteriscos e dividido em três partes. A primeira parte - início do discurso - é também o início da história. Nessa parte, o narrador-personagem informa que não vive com nenhuma mulher a não ser com a mãe - aparentemente, uma dona de casa. Sabe-se, também, que uma jovem chamada Lídia, amiga de sua mãe, interessa-se por ele. “Por que diabo essa menina cismou comigo?”[x].
Ainda na primeira parte, Vicente, em seu caminho, atravessa uma ponte,momento em que ocorre uma retrospecção que vai revelar, por meio do monólogo interior, quando e por que Vicente adquiriu sua “mania” de andar. A ponte é um símbolo que representa a passagem do tempo presente para o passado do protagonista:

Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem. (...) Desde que papai morreu, esta mania. Andar. Quando venho do serviço, num domingo, féria, a vontade aparece. O velho, quando vivo, fazia passeios a Santos, uma porção de coisas. Bom. A gente se divertia, a semana começava menos pesada, menos comprida, não sei. Às vezes, penso que poderia recomeçar os passeios.[xi]

A ausência do pai torna a vida de Vicente opaca, sem perspectivas, levando-o a assumir o papel paterno em resposta à impossibilidade de alcançar seu próprio lugar no mundo. É no subir e descer das ruas que relembra as alegrias vividas na presença do pai, buscando-as dentro de um espaço perdido em si mesmo.
Segundo Tadié[xii], o narrador poético é atraído por lugares afastados, escuros, fechados, distantes dos abjetos aspectos do mundo por ele julgado. O narrador-personagem de “Busca” opta pelas ruas distantes das de sua casa. Ele procura, nas veias da cidade, um sentido para sua vida. Portanto, as ruas compõem o espaço poético que interrompe o tempo exterior para que Vicente busque a si mesmo no tempo interior. Parafraseando Tadié, na narrativa poética há uma busca para escapar ao tempo, voltando às origens da própria vida, ou da história, ou do mundo.
Em outra retrospecção, também na primeira parte, o narrador-personagem conta que, desde menino, exerce a mesma ocupação: trabalhar com solda: “Lá na oficina me fazem uma adulação nojenta, porque sou da coisa. chefe da solda. Ora, desde menino nesta ocupação, é claro que entendo da coisa. Por isso certos fulanos se encostam, agrados para pedir isto e aquilo. Mas Luís é ótimo, não adula. Só abre a boca para coisa aproveitável”.[xiii]
A personagem justifica o cargo de chefia contando-nos que trabalhou como soldador desde criança e notamos que o fato de Vicente ser chefe parece incomodá-lo, pois acredita que as pessoas o adulam não por gostar realmente dele, mas por interesse ou medo de serem repreendidos.
Considerando-se que a solda une peças metálicas e que o metal é algo rígido, difícil de ser transformado, podemos entender que Vicente tenta “soldar” também a rigidez de seu passado - a perda do pai, o fato de não poder mais lutar boxe - ao seu rígido presente - a busca de si mesmo. Vicente “solda” também seu tempo interior à sua caminhada pelas ruas, sem destino definido.
O ir-e-vir dos pensamentos do protagonista é traduzido pelo monólogo interior, unindo o tempo exterior ao tempo interior, como podemos observar na transcrição da passagem do conto:

Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xiv]

A união dos dois tempos intensifica o duelo que a personagem trava consigo mesma por não conseguir atender às expectativas atribuídas às pessoas de seu convívio.
No final da primeira parte, Vicente, em uma rua desconhecida, depara-se com um garoto também desconhecido, passagem em que o narrador é bastante feliz em suas metáforas e em seu lirismo:

O meu sapato novo estava começando a se empoeirar.
Entrei por uma rua que não conhecia. Olhava para tudo. Jardins, flores, mangueiras esquecidas na grama, gente de pijama estendida nas espreguiçadeiras. A bola de borracha subia e descia no muro. Um menino veio. O que eu adoro nesses meninos são os cabelos despenteados. Chutei-lhe a bola, que ela corria para mim. Transpirava, botou a mão no ar agradecendo.
- Legal.
Ele disparou, vermelho de sol.[xv]


A personificação do sapato novo que “estava começando a se empoeirar” é a metáfora do caminho - da vida do narrador-personagem - que já não se sente tão jovem. Esta passagem antecipa o que, mais adiante, ele nos revela ao falar de seus primeiros cabelos brancos que “acima da costeleta, apontam incisivos, provavelmente não demorarão a pintar tudo de branco.”[xvi]
Às palavras vermelho e sol, “associa-se tudo o que é belo, nobre, generoso elevado”[xvii]. A rua e o garoto desconhecidos levam a personagem a se lembrar do Vicente-menino, feliz e cheio de energia, desfrutando a beleza e a liberdade de um garoto; um Vicente de quem ele gostava e que via a rua como um espaço para buscar diversão e aventura; um Vicente que ele já não reconhece e que, como o garoto desconhecido, busca, na rua, algo para preencher seu vazio; ele procura uma “bola com que possa jogar”, uma aventura, acessível em seu momento presente, somente em pensamentos. O menino “vermelho de sol” é o espelho de seu passado e faz com que nosso protagonista se lembre de seu sonho elevado e interrompido por um episódio em sua juventude, relatado logo no início da segunda parte do conto, por meio de outra retrospecção:

- Desta vez ele vai!
Girei para a esquerda, soltei o direito. Caprichava, tanta certeza eu tinha. Aquele mulato não agüentaria mais um “round”.
Um sujeito lá embaixo:
- Desta vez ele vai!
O mulato defendeu, deu uma gingada, ganhou a brecha. Largou o braço. Que técnica! Quem é que poderia esperar aquilo?
Golpe, dor, choque, sangue, escuridão, zoeira, lona. Cara na lona. Eu jamais esqueceria! [xviii]


Novamente, é caminhando que Vicente relembra sua última luta de boxe, da qual sai como perdedor, levando seu sonho de lutador “à lona”. Ele apresenta um problema no fígado, sente-se desanimado mas, incentivado por Freitas, seu treinador, submete-se a uma cirurgia na esperança de poder continuar lutando.
Embora o médico cure a doença de Vicente, nosso boxeador fica impossibilitado de voltar aos campos de luta. Seu grande sonho lhe é amputado e ele perde aquilo que o fazia sonhar e ser alguém cheio de entusiasmo pela vida, cheio de desejo de buscar...
Na terceira parte, o presente da enunciação é retomado e a personagem chega à casa de Luís, o empregado da oficina, cujo comportamento Vicente admirava:

Luís ficou muito contente. Jamais pensei que ele tivesse casa tão bem disposta. Capricho nas paredes, tinhorões no jardim. Em seu quarto, mostrou-me livros, entusiasmou-se com uns desenhos sobre a prancheta. Disse-lhe sem sentir, olhando linhas em nanquim preto:
- Você deve continuar. Desenho arquitetônico dá dinheiro, rapaz - lembrei-me de Freitas naquela hora.
Chateza na tarde. Ia para os lados do Piqueri. Havia bebericado conhaque num boteco, jogado uma partida de bilhar com Luís. Fingira atenção nas tacadas, um capricho que não é meu. Sorrira, pegara no giz, insinuara apostas. Mas por dentro estava era triste, oco, ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem Lídia, nem. (...)
Andando tão devagar. Procurava alguma coisa na tarde. O vento esfriou. Não sabia bem o que, era um vazio tremendo. Mas estava procurando.[xix]


Vicente incentiva Luís a continuar com os desenhos, assim como Freitas, mecanicamente, incentivou-o a continuar lutando, estabelecendo-se assim, um jogo entre o sonho e a possibilidade do real. Ao chegar à casa de Luís, Vicente reconhece na “casa tão bem disposta, capricho nas paredes, tinhorões no jardim”, a segurança que procura. A casa significa o ser interior, ela “abriga o devaneio e protege o sonhador”. O jardim simboliza a cultura, a espontaneidade e o equilíbrio. Luís é equilibrado, espontâneo e sonhador. Ele é o espelho do homem que Vicente queria ser e não é. Luís tem seus sonhos “abrigados”, como um menino e deseja concretizá-los. Vicente não consegue ficar em casa, pois seus sonhos foram “nocauteados” no passado. Seu nome, ironicamente, simboliza “aquele que vence” e ele está em busca de algo que se perdeu no tempo: “ânsia de encontrar alguma coisa. Não parede verde de tinhorões e trepadeiras, nem bola sete difícil, nem lídia, nem.” O objeto da verdadeira procura de Vicente não é algo visível, que está ao seu alcance. O que ele busca está perdido na tarde, metáfora do seu tempo interior, ao qual ele chega enquanto caminha. A tarde simboliza o tempo que separa a manhã - o passado, relembrado em seu monólogo -, e a noite - seu futuro, do qual sua única certeza é a presença incisiva dos cabelos brancos.
Sentado num banco de praça, o narrador-protagonista inicia uma descrição de suas lembranças, interrompidas com a chegada de uma garotinha:

Tempo-será das crianças no jardim público. Sentei-me num banco, cigarros se sucediam. Uma porção de lembranças - tempo de quartel, maluqueiras, farras, porres. Boxe, boxe! Uma frase qualquer me veio na tarde. Ouvida na oficina, na casa de Luís, não a localizava precisa, nem onde. Só sabia que falava nos primeiros cabelos brancos que tenho.
Acima da costeleta, apontam incisivos; provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco. Uma criança passou-me, deu-me um tapinha no joelho. Achei graça naquilo, sorri, tive vontade de brincar com ela. Ficamos nos namorando com os olhos. Ela se chegou, conversamos. Perguntei essas coisas que se perguntam às crianças. Em que ano do grupo está, quantos anos tem, gosta daquilo, disto... O sorveteiro com o carrinho amarelo. Paguei-lhe um sorvete de palito, e ficamos eu e a menina até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça. (...)
Agora o sol descendo por completo. Uma lua em potencial, lá em cima, ganhava tons, parecia uma bola de ocre. Enorme, linda. Meus olhos divisavam no fundo de tudo o Jaraguá, mancha grande meio preta, meio azul... Meus olhos não precisavam. Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.
Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque.[xx]


Percebe-se, novamente, que Vicente fala do passado, mas situa-se no presente e vê no futuro apenas o fato de envelhecer. A oposição presente x passado, leva-nos a concluir que a personagem tem saudades do passado, de sua infância que provavelmente deixou um gosto de alegria, de amparo. No passado havia o “sol”, o brilho da juventude, o sonho a ser realizado. No presente, adulto e avistando seus primeiros cabelos brancos, o narrador sente “um tremendo vazio”. Seu olhar para o futuro também não é de otimismo - “os cabelos brancos apontam incisivos, provavelmente não demorarão em pintar tudo de branco”. Vicente vê seu sonho se perder tanto nos “aventais muito brancos da empregada a surgirem na praça” que levam a menina com quem conversava e o fazia reviver um passado interior, como nos “incisivos” fios brancos que lhe apontam nos cabelos e que levam sua juventude física, exterior. O fato de envelhecer perturba-o, como observamos também em outro monólogo interior: “Preciso cortar à escovinha. Assim escondo os começos de cabelo branco...”. Quanto mais brancos se tornarem os cabelos de Vicente, menos “vermelho de sol” ele estará e o seu sonho tornar-se-á cada vez mais nublado, mais opaco, mais distante.
Notamos na narrativa uma construção poética alicerçada pelo jogo de cores pintado pelo narrador. O vermelho, a vida da juventude, mescla-se ao branco da lua, dando a ela um tom ocre no “meio preto, meio azul” do céu. A lua branca recebe tons e se renova, contrapondo-se aos cabelos brancos de Vicente que somente “cortados à escovinha”, bem curtos, talvez possam ser ocultados, e não podem ser renovados. O protagonista tenta "soldar" o seu tempo de alegria - quando ele queria e podia realizar o que quisesse (juventude, desejo de lutar, sonhos) ao tempo de sua insconsciente busca, ao tempo do “tremendo vazio” (o de não poder lutar boxe, o da ausência do pai, o vazio do “sapato que começava a se empoeirar”).
Os cabelos brancos levam Vicente a refletir sobre o seu presente e a reconhecer a harmonia do passado. O narrador-personagem leva-nos a partilhar dos seus sentimentos nostálgicos, principalmente nas passagens em que ele se depara com crianças - ele chuta a bola para o garoto; acha graça, sorri e conversa com a menina “até os aventais muito brancos da empregada surgirem na praça”. Cabelos e aventais brancos personificados trazem Vicente para o presente que o angustia.
Além das metáforas e dos símbolos, observamos nos tempos verbais destacados no trecho a seguir, que o narrador-protagonista estabelece um ritmado jogo temporal - outra característica de narrativa poética - quando fala do passado, mas situa-se no presente e antecipa o futuro. O jogo ocorre com a alternância dos verbos - gerúndio, pretérito e presente - conforme se intercalam as técnicas do fluxo da consciência - monólogo interior inserido na narração da personagem:

Andando. Um ar quente me batendo na cara. Daniel me havia convidado para futebol na televisão, havia também Lídia... Por que diabo essa menina cismou comigo? Vive de olhadelas, risinho, convite para festa de casamento. Pequenina, jeitosa. Mamãe e ela se dão muito. Lá com suas costuras e arrumações caseiras. Eu não quero é nada.
- Ela é direitinha, Vicente.
Os amigos observam.
Atravessei a ponte. Tinha trocados no bolso, me enfiaria num trem, acabaria na estação Júlio Prestes. Daniel com a televisão e Lídia com costuras... Eu queria andar.[xxi]

O narrador-personagem está sempre presente e interrompe a narrativa atribuindo a ela um ritmo fragmentado, uma descontinuidade, utilizando-se do ir-e-vir entre narração e fluxo da consciência, fazendo com que a linguagem acompanhe o pensamento do protagonista.
O primeiro parágrafo do conto traz a voz da mãe: “- Vicente, olha a galinha na rua! Abri o portão, a galinha pra dentro”. A mãe pede a Vicente que pegue a galinha que fugiu e tenta retardar a saída do filho, argumentando que o sol está alto: “ Espera o sol descer um pouco”. Na verdade, a mãe quer que ele fique porque Lídia, que se interessa por ele, chegará a casa e a mãe deseja vê-los juntos. Mas Vicente quer sair, precisa fugir como a ave e “conduzir sua alma”, caminhando - hábito adquirido desde que o pai falecera. Ao caminhar, ele observa seus sapatos: “Meu sapato novo estava começando a se empoeirar”.
Enquanto caminha, seus passos conduzem-no ao passado: “Na rua de pedregulho mal socado o sapato novo subia, descia”. Percebe-se que a personagem chega a lugares externos e internos involuntariamente.
De acordo com Tadié[xxii], a rua corresponde à rota, ao itinerário. É um espaço natural que orienta uma possível descoberta. A caminhada do protagonista é exterior e interior - rua/vida; sapato/ele, busca. Quando o sol se põe e a lua surge “em potencial, lá em cima (...). Enorme, linda”, Vicente está voltando para casa, uma volta que ele prevê repetitiva, “morna”: “Chegaria em casa, beijo na testa da mamãe, cumprimentos para Lídia. Ela repetiria o jogo - indiretas, risinho, interesse, por que não faço isso, por que não gosto de... Mas o vazio não passaria. Comer alguma coisa, botar o paletó. Andar de novo”.
Novamente, nosso narrador deixa transparecer sua incredulidade em relação à mudança de perspectiva em sua vida. No presente, já adulto, sente-se fracassado e conta para si e para o leitor também os insucessos de seu próprio passado.
Conforme nos ilumina Tadié[xxiii] um narrador que é personagem desdobra-se entre um eu-protagonista e um eu-narrador. Desdobrado em narrador (no presente) e protagonista (no passado), Vicente observa sua vida e busca uma resposta que possa amenizar sua angústia. Essa procura ocorre também durante o percurso da volta a casa, quando repensa o trabalho, os sujeitos aduladores, em recomeçar com a mãe os passeios a Santos, a Campinas... Pensa que a garotinha do parque poderia ser sua filha, que Lídia era uma boa moça... Observa “o sol descendo por completo” e uma lua “enorme, linda”. A lua, entre tantas significações, “é para o homem o símbolo da passagem da vida à morte e da morte à vida”:

a lua fala, no interior da constelação de nascimento do indivíduo. (...) A zona lunar da personalidade é esta zona noturna, inconsciente, crepuscular de nossos tropismos, de nossos impulsos instintivos. É a parte (...) que modela nossa sensibilidade profunda. É a sensibilidade do ser íntimo entregue ao encantamento silencioso de seu jardim secreto impalpável canção da alma, refugiado no paraíso de sua infância, voltado sobre si mesmo, encolhido num sono da vida - senão entregue à embriaguez de um arrepio vital que arrebata sua alma caprichosa, vagabunda, boêmia, fantasiosa, quimérica, ao sabor da aventura... [xxiv]

Ao chegar a noite e ao avistar a lua, Vicente mergulha na quimera de poder transformar sua vida: “Talvez as semanas começassem melhores, menos compridas. (...) Lembrei-me de que precisava passar uma escova no tanque”. A personagem se lembra de que precisa retirar o limo das paredes do tanque, passagem que ocorre logo no início da diegese: “Derramei, fiquei olhando a água no cimento. Aquilo estava era precisando duma escova forte. Começo de limo nas paredes. Sujeira. Quando voltasse, daria um jeito no tanque. As manchas verdes sumiriam”.[xxv]
O limo[xxvi] simboliza “o início da degradação”, a marca de que o tempo passou impiedosamente, e, limpá-lo, significa renovar-se, buscar novos rumos, novos sonhos... Vicente percebe a necessidade de mudar, mas não tem certeza de que possa realizar seu intento. Ele, narrador, sugere que uma mudança, talvez, possa ocorrer. “Era a hora em que as coisas começavam a procurar cor para a noite.”
Somos, assim, convidados à dúvida. A tarde é o tempo da caminhada de nosso protagonista, é o espaço de sua busca.
O itinerário da narrativa poética é, segundo Tadié[xxvii], marcado pelos espaços entre a viagem exterior e a interior da personagem: a sua busca. É justamente esse espaço que o narrador escolhe para criar e imprimir o tom de sua poesia. Vicente procura a lua “enorme e linda” que, “embora privada de luz própria e não passar de um reflexo do sol”, dá-nos a impressão de que faz reluzir nele a possibilidade de preencher seu vazio, de procurar, de buscar “cor” para o seu momento presente e para o seu futuro, a sua noite que “apresenta um duplo aspecto, o das trevas em que fermenta o vir a ser, e o da preparação do dia, de onde brotará a luz da vida.”[xxviii]

Referâncias Bibliográficas

[i] CANDIDO, A . O estudo analítico do poema. São Paulo: FFLCH-USP, 1967, p.13
[ii] Id.. A nova narrativa. A educação pela noite. São Paulo: Ática, 1987, p. 210-211
[iii] GOTLIB. N.B. Teoria do conto. São Paulo: Ática, 2001, p. 33
[iv] Ibid, p.34
[v] VALÉRY, Paul. Variedades. São Paulo: Iluminuras, 1991, p.235
[vi] Ibid, p.205-212
[vii] TADIÉ, J. Y. Le récit poétique. Paris: PUF, 1978
[viii] POUILLON, J. O tempo no romance. São Paulo: Cultrix, 1974, p.54
9 GOTLIB, op. cit. p. 17, 2
10ANTÔNIO, J. Busca. Malagueta, Perus e Bacanaço. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, p.12
11 Ibid, p.12
12TADIÉ, op. cit. p.83-85, 6
13 ANTÔNIO, op. cit. p.12-13, 9
14 Ibid, p.12
15 Ibid, p.12-13
16 Ibid, p.12
17 CHEVALIER E GHEERBRANT. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1982, p. 800
18 ANTÔNIO, op. cit. p.14-15, 9
19 Ibid, p.15
20Ibid, p. 15-16
21Ibid, p.12
22TADIÉ, op. cit. p. 63, 6
23Ibid, p.19-20
24CHEVALIER, op. cit. p.564-565, 16
25ANTÔNIO. op. Cit p.11, 9
26CHEVALIER, op. cit. p.534, 16
27TADIÉ, op. cit. p.67, 6
28CHEVALIER, op. cit. p.640, 16